ECOLOGIA


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«Ecologia, Arquitetura, Energia, Construção» 

Debate - Tertúlia integrado no Ciclo "40 anos de Ecologia a 

partir do Porto" na Fundação Escultor José Rodrigues

23 Maio 2015

Nesta sessão de 40 anos de ecologia no Porto, debateu-se e refletiu-se sobre como a história, a cultura e a tradição podem fazer a ponte entre o passado e o presente para continuar a construir o futuro! 
O arquiteto Carlos Fonseca trouxe-nos a sua experiência com a Arquitectura Sensível, a arquiteta Joana Gonçalves partilhou connosco o seu trabalho de investigação sobre a construção tradicional das quintas da Terra Fria Transmontana e o Professor Jacinto Rodrigues focou, na biografia do P. Himalaya, os aspetos ecológicos e ecosóficos extremamente atuais e que são um dos fios condutores da sua investigação em Portugal desde há 40 anos, primeiro na ESBAP (atual FBAUP) e depois na FAUP.
Na 2ª parte da intervenção Jacinto Rodrigues falou sobre a experiência pedagógica e ecológica na ESBAP, GAIEP, ´Cooperativa ÁRVORE, FAUP, CEAUP, CE.DO apresentando um PP - 40 Anos ESBAP-FAUP (1975-2015)













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Exposição "Escola do Porto: Lado B/ Uma história oral (1968-1978)"
Outubro de 2014 a Janeiro de 2015  CIAJG
Curadoria de Pedro Bandeira

A acompanhar esta exposição foi lançado o catálogo, da autoria de Pedro Bandeira.


Esta exposição, que estará patente ao público até Janeiro de 2015, tem uma série de conversas com alguns dos intervenientes desse período.
Conversa com Jacinto Rodrigues e Eduardo Jorge Fernandes, 26 de Novembro 2014, às 18h no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, Piso -1, salas 12 e 13 - GUIMARÃES.

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Desenho de José Rodrigues - 1975

Encontro e Almoço
Relembrando 40 anos de intervenção ecológica a partir do Porto
Encontro de amigos e participantes dos primórdios da EcologiaESBAP-GAIEP-ÁRVORE-PIRÂMIDE-RENASCIMENTO RURAL21 Junho 2014PARQUE BIOLÓGICO DE GAIA


Realizou-se um encontro no Parque Biológico de Gaia, graças ao apoio do seu diretor, Doutor Nuno Oliveira, sobre o pioneirismo ecológico ESBAP-GAIEP-ÁRVORE-PIRÂMIDE e RENASCIMENTO RURAL, tendo em vista a organização duma exposição sobre os 40 anos deste movimento ecológico a partir do Porto. 







 
 






















Foi apresentado um PP cujo link aqui partilhamos:
http://www.mediafire.com/view/wbqac5b5xlt0ac9/GAIEP_21.10.2014.ppt



ANTOLOGIA BIBLIOGRÁFICA E MEDIÁTICA INCOMPLETA QUE DOCUMENTA ESTE PERÍODO

Entre 1975 e 1980, ao mesmo tempo que era militante do MES (Movimento de Esquerda Socialista) estive envolvido numa atividade cultural unitária que exprimia a vivência dum povo que se libertara da ditadura e vivia agora momentos de grande transformação social e política. As mudanças culturais e institucionais moldavam e adaptavam-se às metamorfoses políticas e culturais desse tempo.
Assim, envolvi-me, com a minha militância, atividade associativa e profissional, nessa onda gigantesca e festiva que abalou o País nessa época. Descrevo esta atividade cultural com a identificação ao conceito de metapolítica utilizado por Gramsci onde ressalta, naturalmente, no plano concreto, um ponto de vista pessoal.
Em sintonia com uma multiplicidade de intervenções em vários grupos, revistas e boletins desse período onde sobressai uma linha de força cuja expressão se traduz num movimento ecológico em Portugal, nomeadamente no Porto, no período pós-25 de Abril.
A minha atividade e militância associativa articulou-se nos seguintes pontos que abordo no PP deste encontro aqui relatado, 40 anos depois:

1º Defender pedagogicamente a construção com tecnologias simples e apropriáveis utilizando energias renováveis.
2º Ousar pensar doutra maneira mudando a vida.
3º Ajudar a construir uma escola diferente e participada.
4º Realizar uma frente cultural capaz de mudar a sociedade numa perspetiva participada e de desenvolvimento ecologicamente sustentada.

Esta bibliografia é muito mais extensa se quisermos estudar este período dos anos 70 na relação do contexto cultural da cidade do Porto e da ESBAP.


 


Aguardamos que esta documentação venha a ser aumentada com a contribuição de todos os atores permitindo outros dados sobre este período. Importa aqui salientar que, nessa altura, os ativistas destes grupos participavam também em Boletins, Jornais e Revistas de outros grupos que se constituíam através da interação pessoal que existia em torno de ações concretas. Os livros roneotipados que escrevi, Utopia Espaço & Sociedade e Ecologia, impressos pela Árvore e pela Associação dos Estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, traduzem o conteúdo das aulas, fornecem referências, cronologias e revelam os trabalhos realizados entre 1975 e 1980. Durante este período foram convidados por nós e com o apoio do Instituto de Francês e Goethe Instituto, Helene Oppert e Anatole Kopp. O GAIEP e a Árvore realizaram ainda uma exposição itinerante cujo pequeno livro foi amplamente divulgado como catálogo dessa exposição em que participaram professores, alunos da ESBAP e responsáveis da Árvore. (Ver o separador EXPOSIÇÕES neste blogue).
O trabalho de construção de domes teve o apoio decisivo do arquiteto Jacques Ritton, que foi meu aluno na Escola Superior de Arquitetura de Rennes. Veio a Portugal por causa da sua pós-graduação sobre arquitetura portuguesa no período do PREC. Defendeu a sua tese em Rennes e fui seu orientador e membro de júri.
Durante este período é de assinalar a realização de exposições provenientes do Centro Georges Pompidou que, graças também ao apoio do diretor do Instituto de Francês do Porto, estiveram patentes na ESBAP:
Energias Livres
Arquitetura dos Marginais Americanos
Estas exposições foram acompanhadas por um texto que escrevi e desenhos de Fernando Pinto Coelho.
(Ver o separador EXPOSIÇÕES neste blogue).
Assinalar ainda que os alunos fizeram uma plantação biológica no jardim da ESBAP a que se deu o nome de Nabal 1º de Maio. Esta horta serviu de apoio à criação, na cantina, de uma ementa vegetariana que foi acarinhada pelo professor José Grade, responsável pelo funcionamento da cantina.


Em 1976, após o primeiro ano de professor na ESBAP, o conjunto de temas tratados nas aulas e nas conferências realizadas no anfiteatro (vanguarda soviética, bauhaus, utopia, etc.) alargou-se a outras temáticas relacionadas com a intervenção social "aqui e agora" no território.
Isto relacionava-se, naturalmente, com as lutas empreendidas pelos moradores, nomeadamente na cidade do Porto e com as actividades do SAAL. Essa temática foi abordada no livro Urbanismo, Uma Prática Social e Política, Ed. Limiar, 1976. Este livro pretendia fornecer uma listagem de práticas contestatárias aos dispositivos topológicos da cidade capitalista. Desenvolvem-se aí os temas por mim tratados nos cursos que fizera em França, na Universidade de Amiens e na Escola de Arquitectura de Rennes onde fui professor. Mostra uma visão crítica do urbanismo contemporâneo e explicita as relações entre espaço e sociedade, revelando teorias e práticas interventivas no território, alargando a prática política não apenas ao discurso ideológico militante mas à intervenção prática no terreno. Trata-se de um material inacabado que valoriza as novas formas de mobilização social, procurando intervenções populares nas lutas que despontavam em vários lugares do País. 
Neste livro, além da visão histórica do território na sociedade capitalista, mostram-se propostas várias que foram surgindo: H. Fathi e a reconstrução da aldeia de Gurna no Egipto; Advocacy Planning nos E.U.A.; Movimentos populares na América Latina, etc.
Num capítulo especial, desenvolvi metodologias e práticas sociais no território do sociólogo italiano Danilo Dolci. Conheci Danilo na Sicília e participei várias vezes em Partinico, no Centro de Iniciativa Social. Este autor marcara-me profundamente e por isso escrevi vários artigos durante o meu exílio, para o Comércio do Funchal, onde relatei o carácter extra-parlamentar da revolta pacífica (método da não-violência) utilizado por Danilo Dolci na "intervenção de base" pelos utentes citadinos em busca de soluções concretas e imediatas sobre o uso da cidade e a conquista do alojamento social.
Também o capítulo sobre os mecanismos de funcionamento do SAAL constituem uma reflexão teórica sobre a utilidade e os limites do processo reformista do SAAL no pós-25 de Abril.
Por fim, o livro apresenta orientações estratégicas na URSS e na China em relação ao território, com modelos cuja crítica é feita.
Lembro ainda que a ediçãod este livro se deve ao empenho do poeta Egito Gonçalves que, dentro do Partido Comunista Português, procurava alargar o debate teórico a cidadãos que, como eu, não pertenciam a este partido. Esta relação para comigo permitiu mesmo que Egito Gonçalves me arranjasse uma viagem de estudo para visitar a Alemanha de Leste, nessa época. 


Durante os primeiros anos da minha actividade pedagógica na ESBAP, desenvolvemos uma acção formativa através de conferências e workshops em bioenergia que eram levadas a cabo num plano extra-curricular. O pressuposto pedagógico de que parti era o de que não pode haver uma mudança social consequente se não se consolidarem as mudanças aos níveis ético e comportamental. O trabalho de W. Reich "Psicologia de massas e fascismo" mostrou que a nevrose comportamental do egoísmo, da timidez, do sadomasoquismo, consolidava-se a partir duma estruturação social cuja forma repressiva se generalizava através do poder e das suas instituições a toda a cidadania. Mecanismos subtis como o funcionamento hierárquico das instituições pedagógicas, a inculcação das culpabilidades e uma agressividade resultante das concorrências e processos de avaliação, necessitavam de mudanças estruturais na pedagogia e na sociedade.
A repressão moralista e a austeridade ao nível da sexualidade, a noção de pecado na concepção do amor pressupunham uma solução radical: novas formas de pedagogia baseadas na cooperação, processos de trabalhos de grupo na aprendizagem e relacionamentos solidários.
O movimento Sexpol de Reich propunha, nos anos 20, condições logísticas para essa nova pedagogia: a informação sobre anticoncepcionais, a reivindicação de habitação para jovens criando condições de autonomia fora da família, bolsas de estudo pagáveis pelo emprego futuro, em prestações, etc., etc.
Também em Portugal, nos primeiros anos "revolucionários" do pós-25 de Abril, estas questões eram prementes como de resto ainda o são hoje. Iniciamos na ESBAP uma série de exercícios de ginástica rítmica e de movimentos de expressão corporal que vieram a ser publicados no livro "Viva Reich". Estes exercícios, resultantes da minha formação em França no pós Maio de 68, com o movimento do Potencial Humano e com os workshops de Gerda Boisen, permitiram-me desenvolver esta metodologia na ESBAP.
Tivemos nessa altura, a presença de um animador francês P. Laurent, do movimento LOG.
Numa outra orientação da expressão corporal iniciamos também, no Porto, actividades ligadas à euritmia, movimento corporal entre o ritmo, o espaço e a música. Esteve presente na ESBAP E NO Colégio alemão uma célebre euritmista convidada por nós, M. Opppert da Escola de Chatou em Paris. Deste trabalho resultou a publicação do livro sobre R. Steiner, que já referimos e que mostra a relação entre o trabalho artístico e o ensino da arquitectura na concepção organicista da arquitectura de Steiner.


A equipa gráfica desta publicação foi da responsabilidade de Graça Martins e Isabel de Sá. Teve ainda a colaboração de José Rodrigues e Paulo Maria. A impressão foi feita na Faculdade de Engenharia em 1979 com uma tiragem de 500 exemplares.






O arranjo gráfico desta publicação foi da responsabilidade de Isabel de Sá e Graça Martins. Edição da Cooperativa Árvore no Porto, tendo sido impresso nas Oficinas da Árvore em 1980 com uma tiragem de 1000 exemplares.
Esta Revista descreve várias propostas de Jacinto Rodrigues para projetos de bioclimatização em casas e sistemas de distribuição de água quente através de painéis solares, em torres que tinham também acopladas eólicas para a produção de energia elétrica. 
Pensava-se assim na sustentabilidade dos bairros sociais.


Este livro-catálogo acompanhou a exposição organizada por iniciativa da Cooperativa Árvore do Porto e o GAIEP, Grupo Autónomo de Intervenção Ecológica do Porto. O texto é de Jacinto Rodrigues. A capa é de João Machado e colaboraram na realização e execução da exposição Marielle Christine Gros, Jacinto Rodrigues, Joaquim Vieira, Luís Casal, Zulmiro Carvalho, Pedro Cavaco, Ângela Melo, Fernando Pinto Coelho, Maria do Carmo Salvador, Carlos Valente.




Os principais animadores destes Boletins foram: Cardoso, João, Milú, Eloy, Valente, Abreu e Teresa.
Estes boletins foram impressos pelos próprios alunos e pelo responsável da Tipografia, Sr. Simão.

Em 1977-78 esteve na ESBAP Hélène Oppert. Foi publicado por mim, nessa altura, este pequeno opúsculo. Foram realizadas várias conferências e demonstrações de euritmia. Em seguida, uma escola Waldorf, de Stuttgart esteve nas Belas Artes a representar cenas de teatro. Fizeram-se pinturas em papel molhado e estudaram-se formas inovadoras do ensino artístico. Esta semente, iniciada em 1977 alargou-se em várias atividades futuras que estão explicitadas no livro que escrevi mais tarde, sobre A arte e a arquitectura de Rudolf Steiner.

Foi ainda apresentada, em 1992, uma exposição sobre Arquitetura Orgânica na Casa das Artes. Mais tarde, em 1993, este impulso veio a traduzir-se numa grande exposição sobre jardins no Mercado Ferreira Borges, com o apoio da Cooperativa Árvore em colaboração com o Rudolf Steiner Seminariet de Yarna na Suécia e a Câmara Municipal do Porto. 
 (Ver separador EXPOSIÇÕES neste blogue). 



 

 
 
 
Em 1994 escrevi um texto para a Revista Nova Renascença, Inverno-Primavera de 94 que corresponde às preocupações que fui constatando em relação ao ensino capturado pelo Estado e pelas empresas capitalistas. 
Foi a experiência das escolas livres, que no princípio do século XX foram animadas por Leonardo Coimbra e tiveram visibilidade através das Revistas Renascença e Águia, que me abriu a compreensão da possibilidade do ensino cooperativo em Portugal.
Assim, com o meu irmão José Rodrigues, o Calvett Magalhães, o pintor Sá Nogueira e Arnaldo Araújo iniciamos a criação duma escola livre, o Arbusto, ligado à Árvore e direcionada para a infância. Mais tarde a Escola Profissional e a Escola Superior Artística do Porto. 
Esta linha estratégica desenvolvia-se também com o movimento internacional das escolas livres em que a experiência das escolas Waldorf, sob o impulso de R. Steiner, tiveram e têm, ainda hoje, um papel fundamental no impulso deste tipo de pedagogia, com reflexos em Piaget e Freinet.




A Revista Alternativa teve múltiplos animadores que trabalharam em simultâneo com a Pirâmide e com a Revista Urtiga. Os seus principais animadores foram José Carlos Marques, Franklin Pereira, Pedro Cavaco, Cláudio, Leonardo Verde e Silvestre Pestana.

Estas revistas trazem artigos sobre as atividades na ESBAP relacionadas com a Ecologia.
O diretor desta revista era Filipe Rocha, coordenador José Calvet Magalhães e designer responsável pelos artigos da ESBAP, Paulo Maria (Paulo Dias).

O Diretor do Boletim da Árvore era Arnaldo Saraiva e faziam parte do Comité de Redação,  António Jacinto, Arnaldo Saraiva, Joaquim Vieira e Nuno Teixeira Neves.





Clicar no link para aceder ao documento: 

TEXTOS VÁRIOS





Clicar para aceder ao documento: Reflexões sobre a ESBAP-1ªParte 1975-1976.pdf




Clicar no link para aceder ao documento: Proposta Dinamização Cooperativa Árvore 1976.pdf


Clicar no link para aceder ao documento:


O Boletim da Árvore teve 4 números entre 1975 e 1976, sendo este o último nº. Tinha como diretor Arnaldo Saraiva. Este artigo "A propósito da exposição sobre arquitectura marginal nos Estados Unidos I " além do desenho de Lagarigue contém desenhos de F. Pinto Coelho. 






Clicar no link para aceder ao documento: Guia de Auto-análise 1976-1977.pdf



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DESENHOS DOS PROJETOS REALIZADOS POR ALUNOS

Estes desenhos deram origem a maquetas experimentais que estiveram expostas, ao longo desses anos letivos.
É de referir que foram também realizados relatórios visando soluções ecológicas para os bairros degradados da cidade do Porto. 







Toda a documentação até agora recolhida provém de várias pessoas: Ana, Franklin, Milú, José Carlos Marques, Luís Gaspar, Cardoso, Carlos Valente, Jacques Ritton, Thomas Riepenhausen, Carlos Fonseca, Rosa e Jacinto.
Aguardam-se mais contribuições para a exposição prevista para 2015: 40 Anos Ecologia no Porto Pós-25 Abril.

Bibliografia relacionada com o contexto literário e cultural do Porto que abrange esta época


 

Lista dos Participantes no Encontro de Ecologia no Parque Biológico de Gaia 

21 Junho 2014


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AVIÃO SOLAR VAI FAZER A VOLTA AO MUNDO EM 12 ETAPAS
Bertrand Picard, que vai fazer a volta ao mundo num avião solar com André Borschberg, esteve em 2012 na Conferência DERBI em Perpignan. Durante o Encontro DERBI teve a oportunidade de visitar o Stand dos Amigos do Padre Himalaya de Sorède e conhecer o invento do cientista e padre português, o Pyrheliophero, em conversa com Jacinto Rodrigues, Antoine Sanchez, Amand Darbon, e André Joffre.

Foto da Conferência DERBI 2012 - Palácio dos Congressos - Stand "Amis du Padre Himalaya"
Bertrand PICCARD escuta atentamente as explicações do projeto de reconstrução do forno solar "Himalaya 1900"
Da esquerda para a direita  : O Professor  Jacinto Rodrigues, Antoine Sanchez, Bertrand Piccard, André Joffre, e Amand Darbon autor do modelo reduzido do Pyrheliophero de Sorède 1900.



Como se pode ler no site Les Amis du Padre Himalaya de Sorède

"Não é a maneira mais fácil de fazer a volta ao mundo, referiu com humor Bertrand Picard. Mas é a mais espetacular para chamar a atenção dos políticos e dos media sobre as questões do ambiente. O projeto Solar Impulse é antes de mais um meio de promover as ecotecnologias através do mundo."

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W. REICH E A BIOENERGIA 

Em 1973, quando era professor em Rennes na Escola Superior de Arquitetura, desloquei-me várias vezes a Paris para fazer uma formação no movimento “Potentiel Humain”.
Era uma secção do movimento internacional “Humain Potential” que surgira na Califórnia e promovia vários workshops em psicologia e em atividades psicopedagógicas relacionadas com a escola de Palo Alto e a Fundação Esalem.
            Após vários workshops sobre Fritz Perle e Carl Rogers estabeleci contactos com um grupo de trabalho que fez um curso sobre “Bioenergia Reichiana” dirigido por Gerda Boiesen. Por essa altura nascera também o movimento cultural e político Sexpol (sexologia política) com o qual estabeleci um contacto através do Jean Paul Laurens, já depois de ter vindo para Portugal, após o fim do meu exílio.
Estive várias vezes no LOG (Laboratório de Orgonomia Geral). Aí estudei aspetos ligados ao acumulador “orgonon”, aspetos ligados à bioenergia em geral e também tomei conhecimento das experiências de Kiriliam, Marcel Violet, etc.
Entre 1976 e 1977, Jean-Paul Laurens viria a Portugal, a meu convite, para realizarmos vários workshops. Participaram os engenheiros Paulo Pinho e José Paixão e ainda o Franklin Pereira. O jornalista, nosso amigo, Afonso Cautela, entrevistou-o.
Entretanto, na ESBAP, fiz vários workshops em bioenergia realizando alguns exercícios baseados nos trabalhos de Reich e dos seus discípulos Alexander Lowen e Gerda Boiesen, com quem aprendera diretamente, no curso de Paris.
Parte desses exercícios encontram-se publicados no livro que escrevi “Viva Reich” das Edições Afrontamento.


                                                                                                Gerda Boiesen
            Aproveitando a presença do diretor do LOG e responsável pela Revista Sexpol, Jean-Paul Laurens, fiz com os alunos e o apoio do senhor Torres, responsável pelo ateliê de carpintaria da ESBAP, um acumulador Reich. Esse acumulador esteve pouco tempo na ESBAP e foi utilizado por um grupo exterior à escola, para o estudo da orgonomia. Segui esse trabalho tendo-me socorrido dos magníficos livros de Luigi Demarchi, Wilhelm Reich Biographie d’une Idée, Ed. Fayard, 1973 e Roger Dadoune, Cent fleurs pour Wilhelm Reich, Ed. Payout, 1975.
Essas ideias encontram-se resumidas no referido livro “Viva Reich” de que mostro aqui algumas imagens:      

Por não ter fotografias desse acumulador, mostro aqui a imagem dum idêntico que vi no Laboratório de Orgonomia Geral em Paris e cujos planos serviram de base para a construção do acumulador na ESBAP. 
                      

            O jornalista Afonso Cautela seguiu também a experiência feita na Faculdade de Economia com o forno solar. Fez-nos uma entrevista, que aqui reproduzimos e que explicita as várias experiências que realizámos na ESBAP.

  
 

Entretanto o Franklin Pereira traduziu um texto sobre o Orgonon, retirado da Revista Sexpol e publicou-o num opúsculo da Pirâmide. A Pirâmide, restaurante vegetariano, resultou da iniciativa do Franklin e do Pedro Cavaco que prolongaram, no exterior da ESBAP, a iniciativa que começáramos na própria cantina da escola.


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Nova Máquina Solar

Nova máquina solar semelhante à que o Padre Himalaya patenteou em 1899 e realizou em Sorède, França, em 1900.
Vídeo 1
Vídeo 2
Vídeo 3


















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Privatização da Água: Uma Ameaça à Cidadania - 10 Dezembro 2013 - ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto 

No dia 10 de Dezembro decorreu no Auditório H202 do ISEP uma reflexão sobre a privatização da água como uma ameaça à cidadania, organizada pela Associação Engenho & Obra, o movimento Água é de Todos e a Oikos Cooperação e Desenvolvimento.



O Professor Jacinto Rodrigues fez uma comunicação sobre "A Água Integrada na Paisagem Ecosistémica" cujas linhas de força podem resumir-se nos seguintes pontos: 
1.A água essencial para a vida:
  . 60% corpo humano é água;
  . Bebemos 2,5L diários;
  . Os vegetais contêm entre 75% a 95% de água;
  . 71% da superfície da Terra é água;
  . Só 2,5% dessa água é potável para 7,2 biliões de pessoas.
  A ÁGUA É UM BEM ESSENCIAL E PÚBLICO E A SUA PRIVATIZAÇÃO EXIGE TODA A NOSSA CONDENAÇÃO.
2.O estudo da água é transversal às ciências exatas (lógico-dedutivas), às ciências sociais (ético-normativas) e às ciências humanas e criativas (estético-expressivas).
  Interconexão, sistémica, o todo é mais que as partes, a realidade é fluída, dinâmica e em metamorfose, é plural e múltipla e não suporta critérios redutores.
  A experiência é concreta e pessoal mas assenta em princípios fixos e abstratos.
  O sujeito e o objeto não podem conceber-se isoladamente.
  A hierarquia deve dar lugar à rede como modelo de organização social, à cooperação, participação e integração.
  A intuição complementa o racionalismo redutor e o imaginal abrange o intuitivo, a inspiração e a imaginação.
  A verdade é um movimento de ideias e revelações que não exclui o mistério.
  A TRANSDISCIPLINARIEDADE É POR ISSO ESSENCIAL. A ÁGUA VIVA EXIGE PAISAGENS VIVAS.
3.   Um paisagem saudável e uma sociedade cooperativa e participativa exigem um metabolismo circular onde o esgotamento das energias fósseis dá lugar à renovabilidade energética (sol, vento e água), a contaminação e os lixos dão lugar à reciclagem e aos nutrientes e a exclusão social dá lugar à integração e cooperação social. 

 



















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IMPULSO ECOLÓGICO PÓS 25 DE ABRIL 

Imagens de Iniciativas Ecológicas Pioneiras após o 25 de Abril - GAIEP -  ÁRVORE - ESBAP - ALFÉ

1984 - Cooperativa ALFÉ - Alfândega da Fé




Fotografia de Thomas Riepenhausen



Utopia Espaço e Sociedade 1979 PDF


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Junho 1978 - ESBAP




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Entrevista de Afonso Cautela a Jacinto Rodrigues- Século Ilustrado1977

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Maiakovsky Um Poeta da Revolução - Janº 1977 PDF

Reflexões sobre a ESBAP - 2ª Parte - 1975-1977 PDF

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Guia de Auto-Análise 1976-1977 PDF

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Julho 1977 - FEUP

















1976

LUTA CONTRA O NUCLEAR



             
              

1976 EXPOSIÇÃO "ENERGIES LIBRES"


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Projeto Exposições Itinerantes 1976 PDF

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Proposta de Dinamização da Coop. Árvore 1976 - PDF

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Reflexões sobre a ESBAP - 1975-1976 PDF

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Capa Revista Alternativa-GAIEP-1976 PDF

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1ª Folha Artigo Chaves para a compreensão do Urbanismo - Revista ESBAP 1976 PDF


Julho 1975 - JARDINS DA ESBAP








Maio 1975 ESBAP E BAIRROS DO PORTO





















Fotografias cedidas, na sua maioria, pelo Arquiteto Carlos Valente.


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Casa de Palha do Arquitecto Jo Argouarch - processo de construção

Aqui ficam as fotos da construção de uma habitação em França pelo arquitecto Jo Argouarch recorrendo essencialmente a materiais naturais como a madeira e a palha. As fotos descrevem passo a passo todo o processo necessário desde a construção das fundações até aos pormenores finais, processo esse que se estendeu desde os finais de 2006 até principio de 2007.












































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PARA AS COMEMORAÇÕES DOS 40 ANOS DO GAIEP 1974-2014
(Grupo Autónomo de Intervenção Ecológica do Porto)

Por iniciativa do José Carlos Marques iniciaram-se as "démarches" entre os amigos ligados ao GAIEP no sentido de não se perderem a memórias desses tempos em que as lutas ecológicas começaram, na cidade do Porto e em Portugal.

Porque eu era professor da ESBAP e muitos dos meus alunos tiveram relações com essa luta ecológica e também com a luta dos moradores pelo direito à habitação, resolvi alargar a minha procura de dados por um âmbito mais alargado.
Aqui ficam alguns dos pontos de pesquisa que iniciei e que espero também vir a receber da rede que fomos constituindo através de e.mails e telefonemas.

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Esposende, 24 de Janeiro 2013

Caros amigos do GAIEP

Tenho lançado um apelo a todos os estudantes ecológicos da ESBAP que
naqueles loucos anos de Abril, estiveram na linha da frente das lutas
ecológicas.
À Milu, que tem uma rede de contactos excelente, ao Valente e ao Xico Morais
que possuem informações pertinentes sobre o primeiro pyrheliophero do Padre
Himalaya fabricado por nós na ESBAP, ao Guilherme Castro, ao Fernando Maia
Pinto, ao Fernando Pinto Coelho, ao Luís Gaspar, etc., pedi-lhes
documentação que vem a caminho nos próximos dias.
Entretanto encontrei, para espanto meu, um pequeno filme de 2002 sobre uma
iniciativa do Campo Aberto.
Aí se fez uma animação cultural em torno do Priscilianismo, heresia do
Noroeste Peninsular, que nos levou a Rio Mau e ao mosteiro de S. João de
Arga, culminando na plantação de castanheiros e outras árvores na nua serra
sagrada de Arga.
Este filme feito pela Loli Comesaña, companheira galega que nos acompanhou
mais o grupo ecológico de Vigo, nesta peripécia que nos empenhou em danças e
exercícios de Gurdjieff e de Xi-Kung
Para quem quiser relembrar esta "suite" dos tempos mais recentes depois do
GAIEP, aqui vai o vídeo:

http://youtu.be/Pfh53eVSKIw

Um abraço fraterno e até sempre,
Jacinto Rodrigues 
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Esposende, 13 de Janeiro de2013

Caríssimo Zé Carlos
Na continuação do meu e.mail de ontem, e uma vez que deixei em cima da secretária ainda alguma papelada desse tempo que reuni para te responder, junto envio, entre outros documentos, a Gazeta da Semana de 8 de Abril de 1976, jornal muito interessante cuja direção estava a cargo do Jorge Almeida Fernandes. Escrevi esse artigo, na Gazeta da Semana, sobre a energia nuclear e a luta contra a proposta de construção da central de Ferrel.
A importância deste artigo, para mim, é que constitui uma rotura no modo de encarar a ecologia pois é a passagem da mera visão ambientalista e conservacionista para uma estratégia de ecodesenvolvimento onde as questões do território, do urbanismo e do modelo de sociedade se põem claramente.
Esta problemática tem a ver com uma linha de continuidade dos estudos que fiz em Paris VIII sobre urbanismo e que me levaram a fazer um mestrado. A minha dissertação foi publicada em França com o prefácio da Françoise Choay e, por iniciativa tua, publicada na tua coleção Cidade em Questão nas Ed. Afrontamento, com o título “Urbanismo e Revolução”em Julho de 1975. Esta orientação estratégica, no domínio da organização territorial, vai constituir uma visão diferenciada da postura moderna e produtivista assumida pela ESBAP e com reflexos no trabalho do SAAL.
Essa tua coleção constituiu um ponto decisivo para a aglutinação das pessoas nas iniciativas ecológicas, como a formação do GAIEP. Essa consciência ecológica teve repercussões nas intervenções cívicas da ESBAP, quer no interior da Escola quer nas comissões de moradores.
Queria também juntar aos nomes dos alunos da ESBAP que referi ontem, o Guilherme Castro, o Xico Smile, o Maia Pinto, o Barroso, a Isabel Flores, a Ângela Melo, o Tó Almeida, o Cláudio Ricca, o Rafael Gaspar, a Micá (Maria do Carmo Salvador) e o Fernando Pinto Coelho que vieram a ter um papel essencial na constituição da Revista Alternativa de Fevereiro de 1976. Aí aparece, na capa, um desenho que julgo ser do Barroso e que expressa um plano de inserção para a ESBAP, integrando uma estratégia de desurbanismo em que a escola se fazia rodear pelo jardim de S. Lázaro, pela Praça da Alegria e por outras áreas onde pululavam domes e zomes e se integravam hortas, eólicas e bosques. Junto em anexo a capa. Noutras revistas a Maria do Carmo Salvador, infelizmente já falecida, teve um papel importantíssimo na recolha e organização de todos os materiais referentes às domes e zomes de que eu fazia profissão de fé nas minhas aulas, por considerar uma tecnologia simples e apropriável na autoconstrução. A Ângela Melo foi também essencial na documentação que se produziu, resultado da investigação durante os cursos.
Graças ao apoio do responsável pelo Instituto de Francês no Porto, Darthuy, conseguimos trazer do Centro Georges Pompidou uma exposição sobre arquitetura marginal americana de que publiquei um artigo no Boletim Cultural da Cooperativa Árvore, muito ilustrado pelo Fernando Pinto Coelho.
Fizemos debates, que se inseriam em seminários que realizei sobre a Utopia e a Organização Territorial e Ecológica e a Vanguarda Soviética.
Tudo isso veio a traduzir-se em Revistas roneotipadas que foram profusamente distribuídas pelos estudantes, dentro e fora da ESBAP.
Junto envio algumas dessas capas, como por exemplo a da Revista Alternativa de Fevereiro de 1976, do Seminário Viva a Utopia, também de 76, Utopia, Espaço e Sociedade – Notas do Seminário na ESBAP de 1979 e textos de alguns seminários que fiz na ESBAP e foram publicados graças à iniciativa dos alunos Eloy, Abreu e João, na Tipografia experimental da ESBAP e mais tarde nas edições Árvore.
Estes textos que escrevi, para os seminários que dei na ESBAP, tiveram incidência na minha posição assumida no movimento do SAAL. Durante o tempo em que participei na comissão coordenadora considerei como mais importante, a ocupação das casas vazias na cidade e o equipamento público de creches, lavadouros, jardins e dispositivos topológicos que entravassem o crescimento urbano, favorecendo a descentralização e um plano “desurbanista” para Portugal. Esta orientação teve como ponto alto a ocupação do edifício a que chamavam o Frigorífico da pesca do bacalhau do arquiteto Godinho, que veio a ser o suporte da associação de moradores de Massarelos. Fiz parte da equipa que entrou nesse edifício abandonado para o ocupar.
Participei também numa mesa redonda televisiva, organizada pelo Fernando Pernes, em que estiveram presente vários arquitetos, nomeadamente o Pulido Valente. Aí reiterei esta conceção de descentralização urbana e do planeamento territorial integrado numa visão de ecodesenvolvimento para o País.
Enviei também ao arquiteto Gigante, que era comissário geral para o Barredo nessa altura, um projeto para os bairros degradados da Sé e do Barredo. Aí fiz uma série de propostas para a utilização das energias renováveis (vento e sol) e espaços verdes para lazer e alimentação. Infelizmente estas sugestões não chegaram a realizar-se pois os inúmeros populares dos bairros degradados daquela zona, não suportaram mais a degradação em que viviam e assaltaram os edifícios, ainda em construção, do bairro do Aleixo...
Neste caixote de memórias em que encontrei os parcos textos referidos, dou-me conta de muitas outras atividades assinaladas em diferentes jornais e revistas que não possuo mas que sei que revelaram outras práticas ecológicas que íamos fazendo. Recordo-me de ter escrito um longo artigo para a Arte e Opinião, sobre os trabalhos realizados na ESBAP com os meus alunos, nomeadamente um estudo sobre a qualidade da água proveniente do rio Sousa para a cidade do Porto e ainda projetos de casas ecosustentáveis e bioclimáticas cujos desenhos eram da autoria do Paulo Dias.
Essas revistas e jornais estão provavelmente dispersos em muitos dos meus alunos e gostaria, neste intercâmbio que vieste propor, que elas pudessem ficar disponíveis para todos. Faço desde já um apelo neste sentido.
Abraço fraterno e até sempre,
Jacinto Rodrigues
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Esposende, 12 de Janeiro de 2013

Caríssimo Zé Carlos

Estou de acordo em participar em 2014 na memória sobre o GAIEP, passados que são 40 anos!
Esta primeira resposta que te dou é apenas um início, a partir de alguns dados rememorativos que consigo encontrar aqui por casa.
Recordo que nos encontrávamos na sala do Afrontamento, com uma dúzia de pessoas e depois mais, para organizarmos um movimento ecológico que dava os seus primeiros passos em Portugal.
Nessa altura eu fazia parte já do MES mas a verdade é que não havia grande sensibilidade dentro desse movimento da esquerda socialista às questões do ecodesenvolvimento e coisas quejandas...
Recordo que numa reunião em Lisboa fui mesmo assobiado por defender o modelo de desenvolvimento ecológico diferente dos crescimentos produtivistas e industrialistas da esquerda em geral.
Havia mesmo um teórico dito marxista, o Bernardo, que veio a considerar a problemática ecológica como uma excrecência da estratégia da CIA, para enganar o proletariado!
Contudo, prosseguimos em várias frentes esse combate. Estava também ligado à Árvore, onde se veio a publicar um jornal em que colaborei com vários artigos. Mas o terreno principal da minha militância ecológica, sempre em contacto com o GAIEP, foi religar os meus alunos da ESBAP a esta problemática. Introduzimos na cantina da ESBAP comida vegetariana que o Zé Grade soube aceitar e promover, complementando a alimentação tradicional seguida pelas cantinas escolares.
Colocamos no quintal da ESBAP uma eólica assinalando no leme a frase PODER POPULAR!
Houve mesmo, junto do lago da ESBAP, uma plantação de legumes variados a que demos o nome de Nabal 1º de Maio.
Com a ajuda dos alunos, construímos um zome que levamos para o centro da Ribeira, nas traseiras daqueles restaurantes tascas semi-turísticos, na altura, para animação dum jardim de aventuras para crianças daquela zona tão carenciada.
Creio que alguns dos patrões das tais tascas e restaurantes indignaram-se com o facto de ocuparmos o parque de estacionamento dos clientes que ali chegavam.
Uma tarde, com os alunos, vimos ainda a destruição da dome que veio a ser utilizada como galinheiro numa habitação degradada, para os lados dos Guindais.
A fotografia desse zome foi publicada numa revista alternativa onde os alunos da ESBAP tiveram um papel importante. Junto algumas fotos do zome e do processo de construção e animação social.
Não desistimos, no entanto e fizemos uma ponte, mais uma vez o GAIEP e a ÁRVORE, realizando uma exposição que se chamou 6 questões sobre ecologia e que está no meu blogue, http://jacintorodrigues.blogspot.com, no separador EXPOSIÇÕES. Depois de lá entrar clica-se na frase exposição sobre ecologia e dá acesso ao catálogo dessa exposição em que colaboraram Marielle Christine Gros, João Machado, Joaquim Vieira, Luís Casal, Zulmiro Carvalho, Angela Melo, Fernando Pinto Coelho, Maria do Carmo Salvador e Carlos Valente. O Carlos Valente fotografou roda a exposição e deixou numa montagem fotográfica a imagem dos principais militantes ecológicos da ESBAP naquele tempo onde eu era professor. Envio essa foto em anexo. Essa foto já tem um nº mais alargado de alunos mas o grupo do GAIEP na ESBAP foi muito mais vasto, integrando por exemplo a Helena Ricca, Carlos Fonseca, Eloy, Pedro Cavaco, Franklin, Abreu, Jorge Moreira e muitos outros...
Eu escrevi o texto 6 questões sobre ecologia que finaliza também com um conto meu A Odisseia do ano 2003, que é um texto escatológico, mais pessimista do que a realidade veio a comprovar, mas explicita o pensamento utópico que, por essa altura, nos empolgava.
Os trabalhos dos alunos da ESBAP, vieram a ser descritos num artigo do Século Ilustrado, na rubrica Ciência e Técnica com o título “Energias Livres – Renovar a Vida, Modificar o Homem” que o nosso velho amigo jornalista Afonso Cautela fez. Não se esqueceu de falar nas nossas experiências de bioenergia e dos acumuladores de Reich.
Lembro ainda que o Xico Morais veio a elaborar um projeto do “pyrheliophero”, forno solar do Padre Himalaya, que chegou a assar sardinhas com energia solar.
Recordo ainda a ida a Ferrel com um grupo largo desses militantes, afrontar a ameaça duma eventual tentativa de construção duma central nuclear e duma entrevista para a RTP, no Monte da Virgem, em que tu e eu fomos falar do perigo nuclear.
Nessa entrevista não deixei de criticar o imperialismo americano e o seu papel de “gendarme” mundial...
Dessas andanças ecológicas e militâncias políticas e culturais, acabou por haver um reconhecimento com a proposta de atribuição de medalha de prata, pelo Gabinete do PPM da Presidência da C.M.Lisboa, Proposta nº 132 de Abril de 1990, ao grupo que participou em Ferrel na luta contra a implantação da central nuclear : António José Saraiva, Gomes Guerreiro, Jacinto Rodrigues, J. Delgado Domingos, José Carlos Marques, Manuela Lourenço, Matos Ferreira, Ribeiro Telles, Afonso Cautela, José Luís Almeida e Silva e Carlos Caldeira, assim como a população de Ferrel na pessoa do seu Presidente da Junta de Freguesia.
Não sei se a atribuição da medalha de mérito municipal, grau prata, proposta pelo vereador Luís Coimbra, chegou a concretizar-se. Eu não tive mais notícias e nunca recebi tal medalha.
Fico por aqui e vou tentar avivar mais a memória e procurar alguma papelada que por aqui tenha...
Um abraço fraterno e até sempre,
Jacinto Rodrigues 


















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Um Estágio em Agro-Ecologia com Emmanuel Rolland - 2007

Pelas 10h30m da manhã do dia 21 de Fevereiro, 4ª feira, chegamos a Chapelle d’Iff, a casa do Emmanuel Rolland. A recepção foi calorosa. Recordações da última vez em que estivéramos ali e ainda alguns minutos de conversa sobre a viagem. Depois o Emmanuel Rolland fez-nos seguir para o seu ginásio. Iniciamos a experiência da actividade pedagógica no Centro “Petit Jardin Ecolier”. É assim o começo matinal dos cursos de formação. E nós queríamos ter uma experiência dessa formação que dura cerca de um ano, tal como Emmanuel Rolland prevê para os seus formandos nesta singular Escola de Vida, onde o ritmo das estações e o trabalho quotidiano regulam os nossos gostos e as nossas acções, num uníssono de harmonia com a natureza. No ginásio treinam-se pequenos gestos, pequenos exercícios que relaxam e harmonizam o corpo para as tarefas, treinando os músculos e desenvolvendo gestos que melhor nos ajudam ao trabalho rural. Numa mesa de balancé ficamos seguros pelos pés sobre uma tábua, ligeiramente inclinada a 15/20º. Depois, esta base vai basculando até ficar horizontal. Nós vamos relaxando, respirando profundamente e mexendo ligeiramente os braços. Em seguida a tábua dá-nos uma inclinação maior. Ficamos então a 40/50º, seguros pelo tornozelo, estendendo os músculos e as vértebras da coluna. Invade-nos um torpor pelo corpo. O sangue aflui ao cérebro. E nós continuamos a respirar mexendo ligeiramente os braços. Sempre a respirar fundo vamos voltando, lentamente, à posição inicial. Depois exercitamos os músculos das pernas, a flexibilidade nos quadris e nas ancas, a força nos braços. Por fim, relaxamos jogando uns 10 minutos de bilhar. Temos que tentar acertar mas sem concorrência. Apenas o prazer de tarambolar… Meia hora depois comíamos pedaços de maçãs, diferentes umas das outras e com sabores também diferentes. Era a “aula” de saborear os paladares diferenciados dos vários tipos de maçãs. Tivemos então, de seguida, uma espécie de aula teórica. Era uma conversa viva e cheia de exemplos concretos sobre a concepção agro-ecológica de Masanobu Fukuoka, uma das orientações que influenciaram a prática de Emmanuel Rolland. Referiu-nos alguns dados biográficos: Fukuoka fez uma formação em microbiologia e especializou-se em doenças de plantas. Mas, aos 25 anos ele põe em causa a concepção da agricultura moderna que estudara. Volta então à sua aldeia e trabalha no sentido de desenvolver uma agro-ecologia, chamada também de agricultura selvagem. A ideia básica é a seguinte: o trabalho com a natureza deve considerar-se um trabalho sagrado e isso implica um certo número de princípios que resultam duma observação consciente da floresta: 1. Não é necessário trabalhar excessivamente a terra pois ela cultiva-se a si própria, graças aos múltiplos ecosistemas de microorganismos; 2. Não são necessários fertilizantes pois um solo saudável conserva a sua própria fertilidade, graças aos ciclos e ao metabolismo circular dos nutrientes; 3. Não são necessários pesticidas pois a floresta é a mais regenerativa das formas da natureza. Esta filosofia de Fukuoka, sempre a favor da natureza e não contra ela, confere ao homem um papel específico na agro-ecologia. O homem intervém conscientemente para fazer com que a natureza possa manifestar as suas potencialidades intrínsecas de criar, regenerar e permitir alimentar. Depois do almoço vegetariano, fomos ver um pequeno filme sobre o trabalho e a obra de Emmanuel Rolland que a televisão francesa fizera já há algum tempo. Em seguida, Emmanuel Rolland levou-nos à sua propriedade especial – Romançon -perto da habitação. Romançon é uma terra que herdou da família e é a base da sua investigação científica, acerca dos taludes que desenvolveu ao longo da vida. Desde há longo anos que Emmanuel Rolland vem trabalhando nesta singular experiência pedagógica de agricultura natural.





Vários taludes foram sendo feitos junto ao vale de um pequeno ribeiro. Uma mata foi-se desenvolvendo num diálogo subtil entre a força da floresta e a pequena intervenção consciente, resultante do conhecimento botânico de Emmanuel. A força da natureza vai fazendo crescer o matagal. Aqui e ali Emmanuel desbasta. Aqui e ali ele planta árvores de fruto à distância conveniente para que a harmonização entre as plantas não se transforme em luta pela vida. As árvores mortas que caem com os vendavais, transformam-se em biótopos de nova vegetação. Um eco-sistema singular esta mata em que o homem intervém cautelosamente e escuta a natureza, os bichos e todos os elementos que nela intervêm. Árvores de luz e árvores de sombra organizam-se nas clareiras e nas zonas húmidas e baixas do vale. Árvores de folha caduca e árvores de folha perene, arbustos, fetos, cogumelos, tudo são sinfonias num jogo de forças, de simbioses, de apoio mútuo e rivalidades também. Emmanuelle conhece essas leis, conhece a comensalidade, a predação e a solidariedade das plantas e dos animais. O papel do homem é escutar, observar e intervir cautelosamente num jogo supremo de alquimia, participando na metamorfose desta pintura e sinfonia prodigiosa da natureza. O conceito que desenvolveu tem a ver com a criação do “Arboretum-ecosistema evolutivo”. Ele sabe que plantar árvores é conceber a própria evolutividade da vida vegetal sempre em mudança. É preciso pré-visualizar o que vai ser o conjunto de árvores no seu todo e ao longo do tempo. Prever daqui a um ano. Daqui a 5 anos. Daqui a 10 e 20 anos… Plantar, semear não são gestos estáticos. É conceber o tempo agindo no aqui e agora – saber que algumas árvores vão morrer, outras crescerão enormemente. Nascerão outras árvores que o homem não plantou… E então, na acção cautelosa, a incerteza e a previsão são componentes de jogo entre o jardineiro e a natureza. Nessa natureza onde pássaros e outros animais virão visitar e habitar. Emmanuel reconhece no biótopo a pegada das raposas, das lebres, etc… Aqui e ali reconhece as penas dum melro ou os dejectos de uma pomba. Deixamos Romançon e fomos até ao Colège de la Valée de Rance, em Languenan. Fora aí que 22 anos antes Emmanuel Rolland começara essa prodigiosa aventura de jardineiro livre. O colégio onde ensinou as ciências da vida, torna-se um laboratório vivo do seu trabalho de ensino.



 



Desalentado pelo tipo abstracto de ensino e com o apoio do Director, transformou a aprendizagem num ensino vivo. Durante 22 anos, com jovens de 15 a 18 anos, calcorreou o vasto terreno do colégio, levantando taludes de terra onde foi plantando árvores e mais árvores – cerejeiras, pereiras, macieiras, nogueiras, castanheiros, aveleiras – e nas bordas dos muros de terra, enriquecida com o “composto” fertilizante orgânico das folhas amarelecidas do Outono e de palha, foi plantando groselheiras, mirtilos, framboesas. E um bosque frondoso foi crescendo à volta do colégio, com clareiras onde as crianças têm sol e em mato mais cerrado e sombrio onde as flores vieram sulcar o solo e as árvores maiores, com os ramos entrelaçados, criaram corredores de sombra. Em seguida, Emmanuel levou-nos até Dinan. Passou por vários viveiros e “conservatórios” de macieiras de vários tipos biodiversivos, típicos da Bretanha. Uma associação formara-se. E o seu trabalho veio a ser apreciado pelo próprio presidente da Câmara que, no princípio era um céptico da ecologia.

A Casa de Palha de Jo Argouach

Depois, fomos ver um amigo que construiu uma casa ecológica. O projecto era simultaneamente dum arquitecto com o apoio de um engenheiro especialista em bioclimatização e que construiu, ali perto, a sua própria casa. O sistema de águas residuais beneficiava da mesma lagunagem fito-depurativa. Esse jardim filtrante permitia reciclar as águas sujas. O processo bioclimático era complexo e integrado. O poço canadiano funcionava também como poço provençal. O Sr. Jo Argouach era o construtor da sua própria casa. Explicou-nos que a serpentina tubular que se encontra enterrada a mais dum metro sob o pavimento cheio de argila expandida e coberto com tijolos E7 e E8 permite trazer o ar a 12 graus. Mas, graças a um pequeno conversor comandado electronicamente e ligado a um termóstato, ele regulariza a entrada e a distribuição do ar conforme o ambiente que se quer. O ar fresco que se pretende no Verão vem a 10º ou 12º. Mas esse mesmo ar vai aquecendo até à temperatura desejada, durante os dias e as noites frias de Inverno, graças ao conversor térmico e ao termóstato. Fomos espreitar no sótão o pequeno sistema electrónico ligado ao tal conversor térmico. É uma espécie de termo ventilador que actua na regularização do fluxo de ar que vem do exterior e que passa previamente pela regulação dos 12º impostos pela massa inerte por onde passa a tubagem em serpentina enterrada no pavimento de argila expandida e tijolos de terra, acumuladores da temperatura do solo a partir de metro e meio de profundidade.





O importante do edifício era o forro interno que preserva a manutenção da temperatura interior da casa. As placas de fibra de madeira, “fermacelle”, são a base do revestimento da casa inteira que recobre uma massa de palha bem compressada. Depois, os muros exteriores feitos na base por tijolos E6 com uma tela de impermeabilização, impedem a osmose e a humidificação dos solos, especialmente durante as chuvas. Assim, a palha seca e compacta torna-se parede que é finalmente revestida por madeira de cedro vermelho. Sobre o telhado estão os acumuladores solares térmicos que aquecem a água que circula do tecto até ao grande cilindro que se encontra no r/c e que, ligado ao sistema eléctrico, pode recorrer ao apoio da energia eléctrica para aumentar a temperatura da água, sempre que seja necessário, ainda que este sistema esteja também ligado ao fogão da sala, de grande massa inerte feito de tijolo burro e coberto com cerâmica refractária e que funciona com restos de madeira. A tarde passou-se nestes encontros, nestas conversas e contactos especialmente úteis para o Amândio e para o Emanuel Cardoso.

A Arte de Annick

Chovia agora mansamente ao entardecer da Bretanha. Por isso, chegados a casa fomos jantar uma ligeira refeição onde saboreámos uma sopa magnífica com quinoa, algas, diversos vegetais, salsa e alho. Durante e depois do jantar abordamos temas sobre a escola de vida que estávamos a vivenciar. Nessa noite ouvimos de Annick o relato da sua experiência no conhecimento da alma humana. Um trabalho pessoal de conhecimento e aconselhamento psico-espiritual.





Plantando Castanheiros

De manhã cedo, o mesmo ritual. No ginásio fazíamos os pequenos exercícios físicos que depois terminavam com um pequeno relaxe, que era simultaneamente de perícia, observação e previsibilidade no jogo de bilhar. O movimento gestual, a flexibilidade dos gestos, a relação do taco com o movimento da mão e o movimento induzido pela própria esferidade das bolas. O jogo flexível e sem concorrência permitia, mais uma vez, a relaxação e os gestos precisos. Depois dum pequeno-almoço suculento fomos para o campo com as galochas e as capas contra a chuva miudinha. Fomos retirando as castanhas que germinavam num tambor furado enterrado na terra ao abrigo de roedores.






Fizemos plantações em garrafas de plástico reutilizadas como tubos de ensaio para aí colocarmos as sementes. Depois, os aceleradores dos garrafões onde foram plantadas estacas resultantes da poda das macieiras, nogueiras, etc. Fazer os buracos, enfiar os aceleradores e meter os rebentos que germinavam já nos “tubos de ensaio”, retirando a garrafa de plástico, tudo isto exigia perícia e o sentido de cada gesto. Cobrir os lugares plantados com gravilha para aumentar a porosidade da terra e para que esta se mantenha quente no Inverno. Depois, fomos trabalhar nos taludes. Transportar os ramos, colocá-los na parte superior do talude. Fixá-los com uma estaca espetada no solo, tudo isto leva o seu tempo. Perceber as relações entre as árvores e os arbustos fixados na crista do talude.





Perceber o ecotipo criado pelos ramos secos, protecção e nicho dos taludes, fixação de futuras plantas como os mirtilos e groselhas, é uma espantosa actividade rural na previsão da metamorfose das plantas. Recolhemos o material na carroça e fizemos o circuito à volta da quinta onde encontramos as lagunagens e a casa de palha, feita segundo a técnica Nebraska. Dali ao local da permacultura foi um ápice. Vimos o “multching” cobrir a terra. Semeamos “capucine” para que a terra ficasse enriquecida e livre de outras ervas indesejáveis para as culturas previstas. Tudo isto foi uma iniciação à actividade rural. E, numa horta ao lado, num campo experimental, fomos ver a plantação de árvores segundo a orientação radiestésica e onde também se usavam espirais de cobre como propôs Lakhovsky. Estudava-se também a influência de cabos de alta tensão sobre as árvores aí plantadas. Em casa, a Annick tocou-nos, no piano, uma pequena sonata. E o Emmanuelle com vasos de metal e gonzos orientais, fazia ressoar sons estranhos. Era como se um eco longínquo vibrasse lenta e pausadamente sobre nós. Depois do almoço ainda conversámos sobre auto-conhecimento e auto-desenvolvimento. O que é o conhecimento justo? A explicação mecânica, a percepção sensorial, a aproximação sentimental, a abordagem social, a reflexão intelectual e o olhar ideológico são apenas abordagens fragmentárias do real. O olhar global destes pontos de vista pode permitir um conhecimento mais aprofundado mas que, certamente, ainda terá que ser inspirado, imaginativo e pleno de intuição para que as soluções provisórias possam ser contudo avanços no saber. Na hora da partida, bebemos uma taça de chá de 3 anos e comemos uma tarte de maçã. A tarde anunciava já uma neblina que descia e quando nos despedimos foi grande a emoção da despedida. A Escola de Vida marcara-nos para sempre.



Jacinto Rodrigues

Fotos de Amândio Silva e Emanuel Cardoso
Artigo publicado no Jornal A Página da Educação, Maio de 2007



"Petit Jardin des Ecoliers" 

A Revista francesa Cohérence (pour un développement Durable et Solidaire) publicou no nº 59, de Outubro de 2007, um artigo sobre esta nossa viagem que aqui reproduzimos. Trata-se de um texto da Associação “Petit Jardin des Ecoliers” dirigida por Emmanuel Rolland e que possui um site em oito línguas. Refere o estágio que realizamos e que foi publicado no jornal A Página da Educação, em Maio de 2007.



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Ecocentro Heol - Casa Autónoma de Patrick Baronnet - 2007

Chegamos ao Ecocentro Heol – Casa Autónoma de Patrick Baronnet – em Moisdon la Rivière – Bretanha (França) eram 16h do dia 19 de Fevereiro de 2007. Vínhamos do Porto, no pequeno Peugeut do Amândio. Foi quase uma directa. Paramos apenas algumas horas numa residencial acima de Bayone. Na condução, o Amândio era revezado pelo Emanuel. Eu, sentado no banco de trás, alimentava a conversa para que o sono não assaltasse os condutores.


Amândio, Jacinto e Emanuel

Quando chegamos, o Patrick Baronnet estava à volta duma eólica avariada. Fomos ajudar. Era necessário descerrar os cabos para que a haste de 20 e poucos metros tombasse lentamente até encostar a um cavalete. As hélices e o dínamo ficavam agora à mão. O Patrick diagnosticou a avaria: eram os carvões gastos e sujos que impediam o contacto com a bobine. Foi fácil a reparação e em breves minutos estávamos a erguer a eólica graças a um macaco fixo ao tirante, para voltar a repor a eólica vertical ao solo. Em seguida, o Patrick levou-nos a visitar uma construção em forma de zome. Essa zome fora construída com 84 losangos e o revestimento era feito de cânhamo e cal. O número de ouro estabelecia a relação entre a altura e a largura do zome. Esta edificação conseguira ter licença de construção por ser considerada uma forma construtiva experimental.



E de facto é um laboratório para vários estudos sobre a relação do espaço e a vida e também serve de campo de investigação para a geobiologia. Os trabalhos de Yann Lipnik, que trabalha desde há alguns anos nas “arquitecturas vivas e formas biodinâmicas” inspiraram a realização desta zome. O estudo da geometria sagrada e a investigação nos domínios inovadores duma ciência telúrica onde se procuram estudar efeitos de correntes telúricas e cósmicas como as redes de Hartmann, Curry e Peyré, interessaram Patrick Baronnet que é um “procurador de verdade” e por isso não é alheio a este tipo de investigações que valorizam antigos saberes com a ciência contemporânea, nomeadamente o paradigma quântico da Física. O dia estava bonito e o sol entrava pela transparência das vidraças coloridas que mais pareciam rosáceas. A porta da entrada estava especialmente decorada. Dir-se-ia que a zome estava revestida de antigos vitrais de catedrais que davam colorações e ambientes lumínicos ao espaço.




Depois de vermos as particularidades construtivas e de analisarmos os materiais e as formas geométricas subtis fizemos algumas experiências: sentir o espaço circular ascendente. Também percepcionamos os vários matizes das cores e ouvimos os sons que ecoavam nessa campânula em forma de zome. A voz era nítida mesmo quando falávamos baixo. E quando J. Ph Marie Moisson, director do Institut William Bates, usou aparelhos de medição electromagnética, vimos um bom comportamento do edifício em relação aquilo que se considera em geobiologia como pontos patogénicos do habitat. Fomos para casa do Patrick, onde fomos recebidos pela Brigitte. Conversamos enquanto comíamos uma salada e uma boa sopa de legumes, trocando algumas ideias sobre o momento político e a situação ecológica mundial. Fomos dormir para o sótão da velha casa rural depois de escutarmos uma bela música que a Brigitte tocou na sua harpa. Na manhã seguinte, terça-feira, tomamos o pequeno-almoço com os Baronnet. Depois, o Patrick mostrou-nos um powerpoint com alguns pormenores da casa 3E (economia, ecologia e entreajuda).


Brigitte


Jacinto, Emanuel e Patrick Baronnet

Referiu também a abordagem holística e sistémica subjacente à construção desta casa e à envolvente territorial. O elemento central deste habitat era o ecosistema, base da nova arquitectura ecológica. Fomos então visitar a casa 3E. Foi importante perceber a relação do todo:


O chão, assente sobre tijolo de terra, é o acumulador radiante. As fundações, que vêm dum fundo de grânulos de argila expandida, aproveitam a inércia térmica da terra que, a cerca de 1,5 metros está sempre a uma temperatura constante de 10 a 12 graus. Assim, a base da casa no Verão é fresca em relação ás temperaturas de 30 a 35 graus do exterior. E no Inverno, por exemplo, os zero graus do exterior encontram-se a 10/12 graus no interior.


Deste modo, o edifício funciona como um forno, no Inverno. Serve-se da temperatura acumulada pelo pavimento e, graças à captação solar (infravermelha) feita pela larga vitrina cuja concentração é facilitada pelo reflexo da parede branca do telhado inclinado, o perímetro das paredes de tijolo de terra é aquecido. Esse aquecimento pode ser reforçado, especialmente durante a noite, com o fogão de sala, envolvido em porcelana refractária e onde circula também a serpentina do cilindro termo-solar. A bioclimatização solar passiva, completa-se com o poço canadiano utilizado no Verão.



Esse poço canadiano feito no momento dos caboucos é constituído por dois tubos que, a cerca de 1,5 metros, se distendem em forma de serpentina, trazendo para dentro de casa o ar do exterior que foi arrefecido pelo solo. A casa é revestida nas paredes exteriores pela palha recoberta de madeira, à qual se junta um reboco quase todo em cal. Esta é a parte isolante do edifício. No interior, as paredes e o pavimento, de tijolo de terra, funcionam como o acumulador da casa. Interessa salientar que a palha não pode ficar húmida. Por isso, junto ao solo está um muro baixo que com uma camada de óleo não permite a osmose da humidade térrea para a palha. O geobiólogo Moisson voltou a fazer medições com a sua panóplia de aparelhos. Verificamos alterações nas radiações electromagnéticas. Os nossos telemóveis faziam interferência nos ponteiros do medidor electrónico. Depois, no exterior, vimos como a água da chuva era recolhida numa cisterna. E vimos como em relação às águas usadas se usava a fitodepuração. O sistema energético provinha duma pequena central que aproveitava a corrente contínua do dínamo da eólica que, articulada com uma estrutura de foto-pilhas, auto-orientável e pousada no jardim, fornecia carga eléctrica às baterias. Um sistema de conversão permitia obter 220 volts para se utilizarem os electrodomésticos habitualmente feitos para essa voltagem. As sanitas secas existentes permitiam que a reciclagem dos detritos orgânicos (restos de comida e dejectos) se tornassem nutrientes do composto previsto para o jardim, horta e pomar. A antiga casa rural, comprada pela família Baronnet, foi totalmente renovada através da auto-construção, tornando-se também autónoma ao nível da água e da electricidade desde há 25 anos.



A eólica fornece anualmente 1,8 megawatts ou seja cerca de 4 a 5 kilowatts por dia. E o painel de foto-pilhas auto-orientável fornece energia complementar. O aquecimento solar passivo foi conseguido através da estufa colocada à entrada da casa. Esta organização espacial - solar passiva – que conta com a inércia térmica das largas paredes da construção vernacular, tem também o complemento de um forno de lenha, embutido num revestimento de tijolo burro, coberto com cerâmica. Existem ainda 4 m2 de captores termo-solares inteiramente construídos pelo Patrick e que fornecem energia para aquecer cerca de 150 litros de água a mais de 40º. Para a água potável aproveitam-se as águas pluviais que são recolhidas em 2 cisternas com mais de 4000 litros cada uma. Com esta logística básica (água, luz e aquecimento) construída há mais de 25 anos, a família Baronnet foi consolidando a actividade agro-ecológica para uma alimentação de base vegetariana. Com estas necessidades essenciais resolvidas, a família pode viver com meio salário de um dos cônjuges e assegurar a manutenção das outras despesas e a educação dos filhos. Pouco a pouco, os Baronnet edificaram um eco-centro, escola de vida com formação nos fins-de-semana sobre agro-ecologia, dietética, gestão de água e energias renováveis. Foram-se organizando estágios que ensinavam, através do trabalho prático, as técnicas de construção ecológica (materiais naturais. terra, palha, cânhamo e cal, etc.) e bioclimatização com técnicas passivas e energias renováveis (sol e vento). Uma pequena associação com actividade editorial foi publicando livros e organizando festivais. E das conferências, formação geral, estágios e festivais realizaram-se em simultâneo a zome e a casa 3E que analisamos. Foi um desenvolvimento orgânico, metamorfoseando no tempo as várias etapas, que permitiu aos Baronnet a consciência de viver em harmonia com o lugar e com os projectos sociais com que sonharam.

Jacinto Rodrigues
Fotos de Amândio Cunha e Emanuel Cardoso.


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Construção de terra em Boassas - Agosto 2007

O Professor Doutor Jacinto Rodrigues e o Professor Arquitecto Luís Pinto de Faria, deitaram mãos à obra (neste caso à terra) e experimentaram a execução de vários tipos de tijolos de adobe (terra com barro/cal/gesso/goma de cacto/palha, etc.). Foi em Boassas, no final de Agosto.



























































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Doutoramento do Arquitecto Luís Pinto de Faria

Janeiro 2007


O arquitecto Luís Pinto Faria realizou no dia 16 de Janeiro de 2007 o seu doutoramento "Arquitectura e Cidade - O Paradigma Ecológico no Desenho Urbano do séc. XXI" . Lembramos aqui que o Doutor Pinto Faria foi aluno desta Faculdade e há duas semanas esteve na FAUP, na cadeira de ecologia urbana, onde resumiu o seu trabalho de investigação que vem realizando desde há 10 anos, pois o seu mestrado já era sobre ecologia e arquitectura. 
O Professor desta cadeira, Doutor Jacinto Rodrigues, foi orientador do mestrado e deste Doutoramento agora realizado na Lusíada e que obteve por unanimidade a classificação de 19 valores.
Ao apresentar o trabalho nesta aula, referiu a importância da ecologia pois ela "está hoje a informar a arquitectura e o urbanismo, não só por via da componente ambientalista, que lhe é denotada mas, fundamentalmente enquanto estrutura lógica complexa - pensamento ecologizado - capaz de reorganizar teoricamente termos como sustentabilidade, ecoarquitectura, ecourbanismo, arquitectura orgânica ou arquitectura verde, num mesmo contexto histórico disciplinar alargado, sustentado no passado, no presente e com ambição especulativa sobre o futuro."



                   



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O Colibri Moringueiro - Dezembro 2006


O artigo que está aqui reproduzido, foi escrito para o congresso realizado em Angola, em 2006 e foi também publicado no blogue da Esteira do Ambiente.

"O colibri em cada sítio pode e deve apagar incêndios, como na história de Wangari Muto Maathay. Isso é prova de postura interventiva e de esperança.
Porém, o colibri em cada lugar tem muitas tarefas para além de apagar o fogo.
A principal acção preventiva é semear e plantar árvores.
Hoje, quero falar do Colibri Moringueiro
A Moringa é uma árvore originária da Índia. Tem sido plantada em vários países do planeta, nomeadamente no Brasil e na África.
Existe muita informação na net, bastar clicar num motor de busca, na palavra Moringa.
O importante, sobre esta árvore sagrada, pode resumir-se no seguinte:
1º Há vários tipos de Moringa mas todos eles podem ser semeados ou plantados em forma de estaca. Sobrevivem em solos pobres e mesmo com pouca água, resistem. Florescem normalmente depois de terem sido plantados em estaca 8 meses depois. os ramos destas árvores que podem atingir alguns metros de altura transformam-se em estacas para novas plantações de árvores Moringas.
2º As folhas de Moringa podem contribuir para acabar com a fome no mundo. Com efeito, as suas folhas são comestíveis e têm propriedades nutricionais fabulosas:
a) 7 vezes mais vitamina C do que as laranjas;
b) 4 vezes mais vitamina A do que as cenouras;
c) 4 vezes mais cálcio do que o leite;
d) 3 vezes mais potássio do que as bananas;
e) 2 vezes mais proteínas do que o iogurte.
Assim, semear uma Moringa é ter uma imensa fonte polivitaminíca e proteíca para toda a família.
Basta fazer uma salada de folhinhas de Moringa!
3º As vagens são sucarentas e constituem um elemento notável para o gado.
4ª As sementes que se encontram dentro das vagens produzem um óleo alimentar, excepcionalmente rico. Também se pode utilizar esse óleo como biodiesel para motores.
5ºA semente, depois de triturada, dá origem a uma farinha que pode ser utilizada no tratamento da água. No Malawi, em colaboração com a Universidade de Licester (Reino Unido), obtiveram-se resultados melhores e a preços mais baixos do que os habituais tratamentos com produtos químicos. Um relatório da referida Universidade explicita que a farinha da semente de Moringa, funciona como um polielectrólito catiónico natural, no tratamento da água. (ver Relatório Sutherland/Folkard e Grant - in http://www.treesforlife.org).
No Malawi procede-se actualmente ao tratamento da água em larga escala, com a Moringa, na povoação de Thyolo.
6º Além da qualidade de coagulante natural que permite o tratamento da água, a Moringa tem propriedades terapêuticas: Na Índia, a medicina ayurvédica utiliza produtos extraídos da Moringa como antibióticos naturais e a antiga tradição indiana refere 300 doenças curáveis pela Moringa. Os cientistas contemporâneos confirmam esta espectacular capacidade profiláctica e curativa.
Em Oman, o óleo de Moringa é aplicado contra as dores de estômago e no Haiti as folhas e flores são preparadas como chás utilizados na cura das gripes. No Malawi usam-se as folhas secas para curar diarreias.
Concluindo
Podem-se plantar cercas verdes, muros vegetais, junto de todas as escolas, igrejas, hospitais e outros eventuais centros públicos. Esses taludes ecológicos teriam Moringas de metro em metro, conjugando-se com amoras, figos da Índia, cenouras, alhos e outras plantas úteis, para alimentar o povo.
Como adquirir sementes de Moringa?
Existem vários sítios na Europa que disponibilizam essas sementes.
No Brasil podem-se comprar na esplar@esplar.org.br
Se não se encontrar em Angola, poderá ser possível obtê-la através do Malawi.
Sejemos Colibris Moringueiros continuando na nossa Esteira do Ambiente porque, mesmo longe uns dos outros estaremos juntos neste mesmo desejo de melhorar o planeta e os homens.
A árvore Moringa de que vos falo é a Moringa Oleífera - Moringa pterygosperma.
A plantação da Moringa pode resultar dum acto de militância ecológica individual mas pode, para maior eficácia, inserir-se num projecto mais global.
Qualquer dessas atitudes é louvável e permite, desde já, o início duma acção consciente, a bem da causa comum.
A ideia de um projecto colectivo para uma maior eficácia e acção participativa, tem sido realizada em vários países. Lembro aqui a experiência feita no Brasil, através da Fundação Deusmar Queirós com o apoio de várias universidades e organizações ligadas à igreja. Este projecto no Brasil foi levado a cabo na zona do Nordeste, no Estado do Ceará. A preparação dessa acção foi longa e contou com vários organismos (universidade, igreja, correios, rádio, etc.). O início da operação fez-se em 10 de Abril de 2000 com a distribuição de 30.000 kits que continham instruções para semear e 4 sementes de Moringa oleifera.
Em 2001 obtiveram-se resultados muito positivos pois 65% das sementes germinaram. A Unesco reconheceu esta actividade como uma forma de tecnologia social que contribui para a prevenção de doenças.
Em 2003, 160.000 sementes foram distribuídas em 84 localidades do Estado do Ceará, tornando-se esta campanha num verdadeiro sucesso que teve a parceria de várias universidades brasileiras.
No caso de Angola valerá a pena, em acção comunicativa, planearmos o modo como a Esteira do Ambiente poderá articular-se em parceria com a Universidade e com organizações sócio-culturais.
Aqui, em Portugal, iniciamos em 2005 uma plantação de um viveiro de Moringas oleiferas. É um viveiro pequeno e ainda não produziu sementes. Estamos a estudar a hipótese de alargar o viveiro. Daremos notícias posteriormente.
Para a organização desse viveiro seguimos uma tecnologia muito simples, utilizada por Emmanuel Roland e que consiste na reutilização de garrafas de plástico como mini-estufa para cada semente.
Descrevemos este processo que podem consultar na internet:
Ver arquivo Novº2005 - Emmanuel Rolland
Ver também Setº 2005 - Guerrilha verde nas cidades
Outº2005 - Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado
Maio 2006-Universidade Experimental do Meio Ambiente
Novº 2006-Josephe Beuys...
Todos estes artigos podem ser reproduzidos livremente assim como os artigos que publiquei no Jornal A Página da Educação, disponíveis no site:
http://www.apagina.pt (ver arquivo-autor-Jacinto Rodrigues)
Alguns destes artigos foram publicado no meu livro "Sociedade e Território - Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado", Profedições, Porto, 2006.

Jacinto Rodrigues
Dezembro de 2006
Feliz Natal Moringueiro"
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2005 - Projecto do arquitecto Jorge Lira em Amares - Braga










Janeiro 2005 -
Pavilhão de Eventos -
Quinta do Esquilo -
Amares - Braga

Casa T2 de fim de semana, em Ponte de Lima do Arquitecto Jorge Lira


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PHIL HAWES E A BIOESFERA 2 - 1991





(Da esquerda para a direita Phil Hawes e Jacinto Rodrigues)

Phil Hawes é um homem tranquilo. Aos 60 anos de idade, numa incansável luta pela ecologia, não perdeu o sorriso de uma criança e o olhar maravilhado de um idealista. Em 1955 frequentou a célebre escola de Frank Lloyd Wright, no Talíesen, Est Wisconsin. Estes anos de aprendizagem foram decisivos. Com efeito, na escola de F. Lloyd Wright, o ensino era a vida global. Por isso, o trabalho agrícola, a autoconstrução da própria escola, o teatro, as oficinas, tudo contribuía para a uma interiorização profunda de um saber prático mas reflectido, de uma aprendizagem feita em equipa, planificada e com balanços sucessivos de avaliação. Projectos e realizações consolidaram a carreira fulgurante deste arquitecto. Na América como na Ásia, planificou parques, construiu edifícios, desenhou projectos. Das casas de adobe em Santa Fé, no Novo México, a Vajra Hotel no Nepal, as preocupações ecológicas foram sempre uma constante. Em 1985 tornou-se o célebre arquitecto do Projecto Biosfera 2. A realização deste projecto consistiu na criação da biosfera, de forma miniaturada onde, num meio laboratorial e para um pequeno número de investigadores, se pudesse investigar um ecossistema básico, incluindo um pequeno bosque, uma savana, um pequeno deserto, um oceano e habitáculos para os diversos investigadores. Através do estudo dos impactos e controlando múltiplos vectores, o Dome, implantado no Arizona, permite estudar os ecossistemas com um pormenor e um rigor fundamentais para uma intervenção na natureza com o máximo de consciência. Trata-se de uma investigação experimental, capaz de elaborar uma ciência com consciência, uma verdadeira bioética, necessária para os novos desafios da humanidade. Este pequeno território experimental permite a aplicação de um sistema de reciclagem, renovação da água e do ar, assim como do controlo bioclimático. Os cientistas ali presentes no interior do Dome, desenhado por Phil Hawes, pretendem estabelecer uma intervenção consciente, ajudando também a própria natureza a um comportamento onde a consciência humana estabelece uma maior harmonia entre todos os elementos participativos no ecossistema global. Um equilíbro cinergético de complexidades estabelece uma relação de reciclagem, operando numa constante adaptação e regeneração. Para Phil Hawes, com quem conversámos, o colapso desta civilização torna-se fatal se não mudarmos completamente de modelo de crescimento e se não apontarmos para uma ecosofia que deverá estar presente em todos os actos da nossa vida.O encontro deste arquitecto-cientista e humanista constitui uma pedra essencial para o Projecto da Gallaecia e Fundação Convento da Orada. Com efeito, o ensino académico oficial está esgotado. O modelo de reprodução, a organização burocrática do funcionamento e a lógica do sistema em que se insere tomam-no incapaz de inovação. O que se pretende com os novos cursos da Gallaecia-Fundação Convento da Orada é quebrar com estas rotinas e estabelecer um autêntica revolução nos objectivos e metodologias. O ecodesenvolvimento toma-se em estratégia essencial para a orientação do ensino destas instituições de ensino superior livre. Pretende-se formar agentes de um desenvolvimento sustentado, através de bacharelatos, licenciaturas e mestrados. As três colunas essenciais dessa formação são a ecoconstrução, o eco-"design" e o ecopaisagismo. A ecosofia deverá estabelecer uma necessária visão global, sem rigidez e sem dogmatismo, mas com a necessária confiança no equilíbrio do homem e da natureza. Respeitando a singularidade das acções locais, deve procurar-se ligar a multiplicidade dessas intervenções a uma globalização planificada; o global e o particular, o uno e o múltiplo articulam-se e complementam-se, graças a um pensamento criativo, estético e ético. Assim, os cursos da Gallaecia-Fundação Orada são uma revolução nos objectivos e nos métodos: as aulas, nesta nova forma de ensino, pretendem estabelecer uma ligação teórica e prática. E uma estreita cooperação escola-comunidade, em que o ensino se traduza em acções exemplares servirá para a clarificação e concretização deste novo paradigma para o século XXI. Esse novo paradigma, esse novo modelo de civilização, não pode confundir-se com crescimento acelerado de destruição e delapidação em que vivemos.Se quisermos escapar à catástrofe ecológica e se desejarmos um futuro em que desenvolvimento social e qualidade de vida se conjuguem harmoniosamente, é preciso mudar. E a mudança essencial começa com o ensino através da concretização de experiências exemplares. Phil Hawes, em Vila Nova de Cerveira, na Gallaecia-Fundação Convento da Orada, será mais um passo na consolidação desta nova experiência de pedagogia social.

Jacinto Rodrigues, in "Jornal de Notícias"25 de Dezembro de 1991 in "Jornal de Notícias"


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Contestação à Prática Urbanística no Capitalismo

SICÍLIA: DA INICIATIVA POPULAR NA URBANIZAÇÃO - 1970


Danilo Dolci e Jacinto Rodrigues

A apresentação deste texto e das entrevistas necessita de uma elucidação importante. Trata-se da exposição de um trabalho de massas, num país dado, a Itália, onde condições e incidências múltiplas, permitem tal tarefa de mobilização popular. Por outro lado. Danilo e Barbera, não estão, de maneira nenhuma, empenhados numa estratégia de tomada do poder político. Por isso o seu trabalho tem um carácter específico; trata-se de uma pedagogia social, um esforço de mobilização a partir das necessidades concretas duma população pobre. Não se põem, portanto, a estes dois sociólogos, o problema da ligação de um trabalho de partido político e um trabalho de massas. Porém, se este facto nos deve alertar contra qualquer tentativa de dissolver estes dois níveis de trabalho, permite-nos descobrir uma metodologia de aproximação e aprendizagem com as massas. Sem misturar tarefas, uma estratégia política defendendo os interesses das massas, não pode porém alienar esse trabalho de penetração e contacto profundo com as classes trabalhadoras, isto é, com a imensa maioria da população. Assim se o trabalho de massas de Danilo e Barbera (ainda que diferentes entre si) não devem ser interpretados como um modelo político de tomada do poder pelas classes trabalhadoras, o estudo e análise do trabalho realizado na Sicília, permite-nos a descoberta de métodos e processos de mobilização e consciencialização das massas trabalhadoras. E este facto é uma condição base para a inserção de uma justa estratégia política que partindo dos interesses reais do povo oriente e organize a mudança radical das estruturas económicas e sociais. Hoje o trabalho de Danilo e até mesmo de Barbera encontra-se ultrapassado no radicalismo e nas diversas formas que foram assumidas pela esquerda extra-parlamentar italiana. A «Lotta Continua», o «Potere Operaio», o grupo do «II Manifesto» prosseguem hoje um trabalho de massas que alargou o campo de acção da fábrica à sociedade e possibilitou a intervenção radical dos camponeses pobres na luta.



Esta perspectiva de unidade com as massas e a tentativa de lançar o combate da luta de massas para além das reivindicações salariais, utilizando novos métodos de luta (ocupações de casas, terras, julgamentos populares, a contra-informação, etc...) fazem hoje parte duma herança táctica que trouxe achegas para a crítica ao reformismo sem que essa crítica tivesse naturalmente que se apresentar como radicalização de um grupo minoritário. Graças a uma mobilização sobre temas concretos do quotidiano, mas em que é possível uma participação massiva, a esquerda extra-parlamentar começa a demarcar uma linha de massas que se opõe à aparente mobilização de grandes grupos numa base legalista. Danilo e Barbera contribuíram especialmente no modo táctico de descobrir um processo que hoje vai ainda mais longe na unidade e mobilização revolucionária das massas, a perspectiva da tomada do poder. Depois do tremor de terra de 15 de Janeiro de 1968 várias aldeias do Vale de Belice foram completamente destruídas. 1140 mortos, 50000 famílias atingidas pela tragédia. Tal é o resultado desta catástrofe que devastou as aldeias de Gibelina, Salaparuta, Santa Ninfa, Pogioreale e ainda outras. O que se passou depois do tremor de terra foi a tomada de consciência política. Entretanto, a reconstrução de aldeias pelo povo a partir de cooperativas de reconstrução, não pode compreender-se sem uma apresentação histórica específica desta zona de trabalho levado a cabo desde há 20 anos por Danilo Dolci e os seus colaboradores. Desde 1952 Danilo Dorci e um grupo de trabalhadores têm prosseguido um trabalho de consciencialização e mobilização popular que se mantém exemplar. Combatendo a Máfia e a exploração dos trabalhadores, Dolci encontrou na pressão popular a partir de meios não violentos um processo de luta importante.


Jacinto Rodrigues e Franco Alázia, colaborador de Danilo Dolci

Sociólogo de grandes méritos, ele escapa-se todavia da sociologia «oficial», teórica em demasia. Compartilhando a vida quotidiana das populações miseráveis da Sicília, é aí que analisa a realidade, ganha amizades e procura a transformação das situações. As dificuldades foram enormes: mas hoje sabe-se que o seu trabalho exerceu uma grande influência entre os quadros dos partidos de esquerda e mesmo em vários grupos extra-parlamentares. Utilizando diversas formas de actuação e uma propaganda de consciencialização tem encontrado nas massas de operários e camponeses um apoio forte e decidido. Danilo empreendeu uma enorme actividade. O seu desejo era mobilizar os trabalhadores a fim de que eles resolvessem, por si mesmos, os seus problemas, a partir duma solidariedade e duma acção colectivas. O jejum de Trapetto, as greves, as prisões sucessivas de Danilo e de vários sindicalistas, foram chamando a atenção da opinião pública sobre a realidade trágica de Sicília ignorada, onde a miséria e o terror da Máfia destruíam o povo. A forte pressão das massas aumentava. O combate de justiça empreendido por Dolci impunha-se dia a dia. Deste modo. Danilo e os seus camaradas puderam obter a relativa liberdade de prosseguir um trabalho de estudo aprofundado. Em 1958 fundam o centro de Estudos e Iniciativas em Partinico.



O método de Danilo compreende uma análise da realidade e a transformação da situação a partir da pressão não violenta: 
1. estudos da realidade através duma procura científica de dados, e por um trabalho de inquéritos onde o povo se torna, pela resolução dos problemas um grupo consciente das suas necessidades. 
Esta tomada de consciência desenvolve-se pela discussão progressiva de pequeno a grande grupo, bem como da problemática menos complexa à mais complexa, num processo progressivo; aqui a uma problemática dos trabalhadores, junta-se a contribuição da ciência fornecida por peritos que actuam em estreita ligação com a população. A prática social é fundada numa planificação construída pela base, isto é, pelos camponeses e operários. Mas esta «planificazione dal basso» não deve ser interpretada como um populismo espontaneista; pelo contrário, na actividade de Danilo tudo é organizado: a) encontros individuais, troca de impressões e informações; b) trabalho de discussão por pequenos grupos; c) ligação orgânica entre vários grupos; d) catalização para uma tomada de consciência colectiva a partir da auto-análise popular e da comparação com as opiniões dos técnicos; e) desenvolvimento cíclico da discussão partindo sempre da experiência concreta de cada um; f) apresentação de um trabalho analítico proposto pelo técnico depois dos contactos com os grupos e os seus problemas (documentação fotográfica, estatfstica, etc... proposição de hipóteses); g) discussão da hipótese e decisão colectiva para uma experiência piloto. 




2. O trabalho piloto, o trabalho inicial é a prática diária para experimentar uma hipótese e demonstrar, por um exemplo, se a solução proposta foi ou não correcta. 
3. A pressão democrática não-violenta é a organização para a modificação das situações intoleráveis. Esta pressão é um trabalho de organização colectiva onde é planificada a propaganda dos pontos estratégicos a partir de uma temática real. O combate visa uma solução concreta. Desenvolve-se a nível local, regional e nacional se possível. É assim que se estabelecem os comícios, se processam as marchas e se organizam conferências de imprensa ou de delegações junto do parlamento. Toda a acção é precedida por propaganda, cartazes, inscrições sobre os muros, através de frases simples que toquem os problemas chaves da população. Não nos é possível contar brevemente toda a riqueza e todas as actividades de Danilo Dolci e dos seus colaboradores e amigos. Lembraremos rapidamente que, após actuações diversas, as promessas duma barragem no rio Jato transformaram-se em realidade. Os trabalhos desta barragem, desenhada pelo Centro de Iniciativas de Dolci estão na fase final. Surgiram cooperativas por todo o lado. Uma enorme cooperativa desenvolvia-se em Menfi sob a direcção de Nino d’Angelo. Os camponeses encontraram uma nova forma de associação, criando uma nova mentalidade. 0 Centro que se fundara em Partinico começava a encontrar audiência nos municípios mais próximos. Em 1965 nasce um centro de Planificação Comunitária, e em 1966 surge o jornal «PLANIFICAZIONE SIClLIANA». Em 1967 organiza-se uma marcha sobre a Sicília Ocidental, de 6 dias, com um percurso de mais de 180 quilómetros. Os objectivos são o emprego, as barragens, a industrialização agrícola, etc... Em Dezembro deste mesmo ano vários comités de cidadãos se criaram em todas as zonas da Sicília Ocidental. Face a esta acção, a reacção e a Máfia difamavam-na e tentavam sabotá-la porque o povo siciliano rejeitava as velhas estruturas sócio-pollticas e encaminhava-se para uma nova Sicília. Tal era a situação antes do tremor de terra de 15 de Janeiro de 1968. Eis porque face a esta tragédia e diante da ineficácia do governo italiano, que não apresentava qualquer solução para a catástrofe, os camponeses se organizaram imediatamente. Em Fevereiro, a população afectada pelo tremor de terra organizava-se no Comité «Populazione Terramotate». Depois de várias reuniões em Assembleia Geral, foi decidido fazer-se uma viagem a Roma; um cortejo organizaria uma manifestação diante do Parlamento. 



«A população quer trabalho, e não caridade». 
1 300 habitantes desta zona partem para Roma: durante 4 dias e 4 noites várias centenas de sicilianos reivindicam diante do Parlamento: 
QUEREMOS CASAS, E NÃO PROMESSAS! 
Os cidadãos pediam a participação e o controlo na reconstrução, a partir dos seus comités de cidadãos e de assembleias gerais. Durante as conversações obtiveram novas promessas e o aumento de crédito para certas obras. No centro de estudos, onde trabalhava uma vintena de técnicos (sociólogos, arquitectos, urbanistas, educadores, etc…) renovavam-se as discussões na procura duma solução, mobilizando colectivamente os trabalhadores; tratava-se de um plano projecto de «urbanização e planificação de base». Este plano ia contra os planos do governo, cujas propostas eram feitas do alto sem terem em atenção as necessidades reais da população e se definiam no fim de contas, como uma imposição abstracta. O plano proposto pelo Centro de Estudos e Iniciativas é uma planificação de base. Como diz Danilo: «Inventar, na população e com a população, o futuro é um trabalho complexo, uma obra de arte, uma ciência, uma auto-educação, uma estratégia, uma organização, uma promoção política, entre outras coisas. Este plano não tem um só autor: os autores contam-se por milhares, dezenas de milhar de pessoas. Toda a população é consultada, dos analfabetos até aos técnicos mais qualificados. (...) O essencial deste plano é de pôr à disposição dos responsáveis políticos um instrumento válido e eficaz. De pôr à disposição de todos a resolução duma situação, já que em Itália não existe uma autoridade verdadeiramente coordenadora e planificadora, mesmo após um tremor de terra. (…) Este plano é um instrumento cultural, com o qual a partir de uma acção é político-cultural, a consciência popular pode determinar a sua realização prática.» As conferências de imprensa, os cartazes, a difusão de música, a partir de grupos populares e sobretudo inscrições nos muros e nas estradas, surgiram por toda a Sicília Ocidental. Uma enorme maqueta em forma de plano em plástico ia à cabeça da marcha. Em todas as aldeias os manifestantes paravam e o plano era discutido. Os slogans inscreviam-se por toda a parte nas inúmeras aldeias: 
«HOSPITAL IMEDIATAMENTE»! «RECONSTRUÇÃO»! «AGUA PARA A AGRICULTURA»! «NÃO À MAFIA»! 
Em Partinico projecta-se o filme «Não à Máfia», seguido de uma discussão sobre as relações entre a Máfia e a política. Em 21 e 22 de Outubro, o movimento terminou com o envio de uma carta ao Presidente da República, Saragat: «Já tivemos muitas promessas; mas as promessas não foram mantidas. A barragem de Belice é a vida para todos nós. Eis porque o atraso é assassino! (...) Nós queremos construir as nossas casas e a nossa barragem, queremos desenvolver a indústria, não queremos passaportes para partir para as cidades estrangeiras. Na nossa terra poderemos construir uma cidade. Água, estradas, electricidade no campo. Reconstrução e desenvolvimento sem a Máfia, irrigação da terra para os que trabalham.» A carta denuncia em seguida os responsáveis pelo atraso na reconstrução e a inexistência da barragem de Belice, responsáveis pelas condições deploráveis de vida dos 20000 cidadãos tocados pelo tremor de terra. Em 7 de Dezembro foi também apresentado um plano de «sobrevivência da população atingida pelo tremor de terra», nascido por iniciativa popular. Este plano recebeu a colaboração de institutos universitários de investigação. Vários professores, arquitectos, urbanistas, economistas, e outros técnicos, participaram neste plano. Dois anos se passaram após o tremor de terra e contudo a zona permanece abandonada; os milhares de famílias continuam vivendo a tragédia. 
Os decretos e as promessas de realização até 31 de Dezembro de 1968 não foram postos em prática pelo governo. Gibelina, Salaparuta, Pogioreale, permanecem em ruínas. Centenas e centenas de pessoas emigram. E numa área de olivais perto da aldeia de Gibelina que Gabriello, um jovem estudante, dirige um grupo de jovens que viviam nesta aldeia. E um Centro Comunitário. Os jovens compreenderam os verdadeiros problemas do povo; a reconstrução, o desenvolvimento sócio-económico da zona e as soluções com vista a evitar a emigração. Estabelece-se o diálogo com toda a população, aumentando assim a sua tomada de consciência sobre a necessidade de mudanças. Faz-se um inquérito sobre os problemas ligados à reconstrução e ao desenvolvimento. É a partir das assembleias gerais e das reuniões de comités que se desenvolve esta força. Pequenas e múltiplas cooperativas de reconstrução se criam para realojar as vítimas da catástrofe. Massivamente uma solidariedade se desenvolve face à negligência e abandono por parte dos poderes públicos. É o povo ele mesmo que toma consciência e que constrói esta nova «urbanização e planificação de base.» Mas o realojamento não é suficiente. Os objectivos são mais vastos, pois a resolução dos problemas está ligada a mais largas actividades: o trabalho, o nível de vida social e cultural, etc… Assim prossegue o combate pacífico iniciado por Danilo Dolci, Franco AIásia, Barbera, Ingrassia e tantos outros. É a Sicília nova que, a partir da base, rejeita as velhas estruturas e propõe, pela prática, outras que sabe mais justas e mais correctas. SICÍLIA NOVA? Uma problemática desigual, um grau de consciencialização diferente, uma forma diversa de expressão da raiva de classe existem na base social e geográfica onde se processam as actividades de Danilo e Barbera. Danilo apesar do seu cosmopolitismo pacifista que se ramifica pelos vários comités internacionais da paz, centra, em especial,o seu trabalho na zona de Partinico e no Vale de Jato, onde a pressão popular fez construir uma barragem. Barbera, por seu lado, exerce a sua actividade no Vale de Belice. O Vale de Belice é a desolação do tremor de terra. A população camponesa forçada a habitar os barracões de zinco. Os problemas quotidianos são explosivos: é a luta pela sobrevivência e a raiva contra a passividade governamental. Partinico, onde Danilo tem o centro principal da sua actividade é hoje uma vila onde a penetração comercial e industrial do capitalismo é uma evidência. Uma franja de profissões burocráticas e comerciantes representa as novas relações de produção. Embora a população agrária seja ainda importante e os traços do campo apareçam constantemente pela presença de um rebanho ou dos carros de boi na vila, a verdade é que os centros ainda que reduzidos concentram já uma classe operária. As organizações sindicais aparecem como os meios de reivindicações e, a burguesia, concentra os mass media e as estruturas de «ajuda social». Assim se reestrutura a nova organização da luta legal no conflito de classes numa democracia burguesa. Além desses pontos importantes que servem de base de explicação há ainda que considerar duas linhas de acção que se opõem duma forma cada vez mais visível. Logo após o tremor de terra de 15 de Janeiro de 1968 as equipas de trabalho começaram a manifestar tendências de oposição. Na assembleia popular o grupo de Barbera tomara uma posição mais radical. Além da virulência do texto, o documento enumerava os principais responsáveis governamentais do abandono à morte e à desolação do Vale de Belice. «Aqueles que impedem o desenvolvimento, a construção de casas, estradas, escolas e hospitais, aqueles que impedem a educação e o desejo de viver como homens livres, são assassinos» – dizia-se no documento. Em seguida, num julgamento popular considerou-se o governo como ilegal em relação à vontade do povo, tanto mais que era ainda ilegal segundo as afirmações que fizera: das promessas feitas nada fora cumprido! O povo do Vale de Belice criava espontaneamente uma nova legalidade: a legalidade das massas. E o veredicto recaía sobre o governo e, especificamente sobre as personalidades de Giulio Pastore – ex-ministro da Caixa de Mezzogiorno; Cajatti – actual ministro da Caixa de Mezzogiorno; Piarricini, Nancini, Carollo Sardi, etc... membros dos ministérios e responsáveis governamentais. A acusação recaía ainda sobre os burocratas que se tinham ocupado da realização dos planos de socorro e desenvolvimento das terras atingidas pelo tremor de terra. As massas populares mostravam assim no julgamento popular uma raiva crescente e uma vontade de revolta que perdera lar todos os traços tradicionais da resignação habitual ou ainda de acusações abstractas e sempre indefinidas. Estava a concretizar-se a caracterização do inimigo! Danilo tomara uma atitude moderadora. Considerando essa raiva popular como o desespero proveniente de uma situação particular admoestava os camponeses ali reunidos considerando que ainda era possível um compromisso com os responsáveis governamentais. Quando em 1968 visitámos o Vale de Belice, não muito tempo depois do terramoto, quando falávamos do que acontecera, não tínhamos resposta em palavras. Era ainda o choro e o fatalismo soluçante da tragédia. A comoção! Porém nessa tragédia havia também o acordar de uma nova consciência. A população reavivava a sua crítica. Os comités de cidadãos formavam-se por toda a parte e as assembleias populares nasciam em todos os povoados. Não mais se podia dizer que se tratava de um acontecimento incontrolável quando o povo começou a ver nas cooperativas de auto-construção, nascidas espontaneamente para resolver os problemas imediatos, tijolos e materiais anti-sísmicos, quando se verificava sobretudo, que a caridade nada resolvia e que as promessas do governo não eram senão palavreado para esconder o egoísmo essencial do sistema político capitalista. No drama e na dor as massas foram compreendendo. Por isso, quando da segunda vez visitámos o Vale de Belice em 1970 a população radicalizara-se profundamente. Os barracões de zinco tinham-se tornado insuportáveis para aquela gente. Os impostos, o pagamento da água e da electricidade eram sistematicamente repudiados pela população. A revolta estalava espontaneamente. As mulheres expulsavam à paulada os cobradores de impostos e da água e luz. As cooperativas eram para além de um embrião de contra-poder económico um local de consciência popular sobre os problemas de toda a sociedade. A ideia de contra-poder generalizava-se e explicitava-se mais correctamente. E o grupo de Barbera reunido em Partana procurava a partir de 1969 sistematizar as perspectivas espontâneas que nascem da revolta das massas do Vale de Belice. Esta noção de contra-poder era já uma das características inerentes ao trabalho de Danilo. Ao falarmos com Danilo Dolci a ideia que ressaltava da sua conversação para além do seu pacifismo intrínseco e metafísico era uma preocupação empírica de convencer através de experiências piloto. No fundo, Danilo apercebia-se do nascimento de uma estratégia que se afastava da sua orientação. Pacifista irredutível, considerando portanto abstractamente como negativa qualquer tentativa de violência, assistia a uma onda crescente de raiva incontrolável cuja expressão da violência era, ela própria a necessidade inerente a uma justiça e vontade popular. Para o grupo de Barbera a violência era essa repressão que acorrentava os camponeses a uma vida sem perspectivas na solidão das barracas de zinco. Violência e repressão era o abandono das terras onde as giestas bravas vieram crescer, das terras onde nascia o trigo. Violência e repressão era o abandono das centenas de famílias por entre as ruínas dos antigos povoados. Portanto toda a violência contra essa violência era justiça do povo. Na verdade, no Vale de Belice, os camponeses que vieram ao «julgamento popular de Rocamena» tinham no corpo e no sangue essa miséria e a dor que era como se aqueles ferros retorcidos dos escombros dos terramotos estivessem ainda a dilacerá-los. A emigração era o sangue do povo siciliano que escorria para a sanguessuga gulosa dos centros industriais do norte. A sanguessuga sempre sedenta de homens e sempre alheia ao drama das famílias separadas, das novas barracas em torno das grandes cidades do norte. Barracas piores ainda que as do Vale de Belice. Barracas de oleado e zinco nos bairros de lata de Milão, de Roma, de Florença ou de Nápoles. Mas que fazer senão partir? A terra por desbravar, o gado morto e as alfaias despedaçadas com o tremor de terra... Certo que muitos partiram. Partiram para as grandes cidades. Mas os que ficaram, ficaram com a revolta, com as ruínas que não mais se reconstruíram. Com arame farpado à volta que barracas de zinco que vieram da América ou da França através da Cruz Vermelha. Ficaram mais de 90 000 sicilianos em campos de concentração, que são barracas de zinco aglomeradas em alguns centros chamados «Barracopolis». Aquilo não era solução. Por isso não se pode dizer que a ruptura entre as duas equipas, hoje perfeitamente diferenciadas, consistisse nesse facto. Reside sim é na aplicação desse mesmo «contra-poder». Para Danilo Dolci o contra-poder é apenas uma experiência piloto para convencer e persuadir mesmo o inimigo pois Danilo o inimigo é transformável por uma acção pedagógica. Para o grupo de Barbera a estratégia pacifista foi abandonada para se assumir uma noção clara de carácter de classe de qualquer violência podendo portanto deste modo distinguir-se a violência justa ou injusta. Por outro lado, a noção de «contra-poder» é mais a instrumentalização da luta e a criação de estruturas alternativas do poder. É certo que muitas ilusões utopistas acompanharam as primeiras tentativas de assegurar essas experiências de «contra-poder» especialmente no que era a base económica: as cooperaticvas. Mas pouco a pouco pela prática o utopismo desvanecia-se e a noção de «contra-poder» tornava-se instrumentalização de luta, noção de transformação da realidade para o combate político e aplicação dos princípios políticos ao quotidiano. Em Danilo Dolci encontramos a preocupação constante dos problemas do povo mas na tentativa de resolver a luta essencialmente através da greve da fome, das marchas explicativas para que pedagogicamente se faça compreender às autoridades através da pressão popular a necessidade de intervirem: tal foi o caso da barragem sobre o Jato, tal foi o caso do plano de urbanização da Sicília Ocidental, tal foi o caso da emissão de rádio lançada de Partinico. Este último tem características bem específicas pois corresponde a uma posição intrínseca ao grupo de Danilo, mas, ao mesmo tempo, o facto de se colocarem à margem da lei, parece ser resultado de uma pressão exercida pela cisão de Barbera: Danilo Dolci obteve um emissor de rádio. A legislação italiana, no que diz respeito à informação, regulamenta-se ainda como no tempo de Mussolini. Por um lado, para se proceder a um esclarecimento sobre o que se passava na zona da Sicília e por outro lado para pressionar o governo que iria, a curto intervalo de tempo da experiência, discutir na Assembleia os problemas da informação, o grupo de Danilo Dolci em 25 de Março de 1970 organiza a emissão de rádio «nuova resistenza». No dia exacto da emissão, Danilo informa as autoridades que uma emissão de rádio ia ser feita a partir do centro de Partinico para a Itália e todo o mundo. Explica que «se houver uma tentativa de impedir a difusão desta voz pela penetração forçada no Centro de Estudo e Iniciativas de onde a emissão é feita, pode pôr-se em perigo a vida de Franco Alasia e de Pino Lombardo, que se barricaram generosamente no interior do centro para garantirem a possibilidade de prosseguirem a emissão» Toda a imprensa italiana e mundial assinalava o facto desta operação de contra-poder ao nível da informação. Durante quase 20 horas a rádio da «nuova resistenza» transmitiu: «Nós temos o direito de falar e o dever de nos fazer ouvir! S.O.S. S. 0.S. São os pobres de Sicília Ocidental que vos falam através «nuova resistenza» S.O.S. S.O.S. Sicilianos, Italianos, homens de todo o mundo escutai… …A população da Sicília Ocidental não quer morrer... …Nós temos mãos de trabalho, somos homens com vontade de trabalhar e temos o espírito aberto para transformar toda a zona do tremor de terra, transformá-la numa cidade viva com todo um campo apetrechado com todos os serviços necessários para garantir uma nova vida. ...Homens do governo abandonastes na miséria as crianças, as mulheres e os velhos, uma população inteira. Vós não tendes vergonha por não haver garantido imediatamente em habitação e trabalho, escolas e novas estruturas sociais e económicas toda a população que sofre? No entanto, se quizesseis, em alguns meses poderia surgir uma nova cidade, uma cidade viva. S.O.S. 
S. O.S. 
Aqui morre-se nesta terra abandonada. ...Todos aqueles que ouvem esta voz avisem os amigos, avisem toda a gente. A população da Sicília Ocidental não quer morrer...» Apesar de ser um apelo de carácter humanista esta acção pode considerar-se exemplar, pois a intervenção do governo não tardou. A polícia interveio, e era rapidamente sequestrado o aparelho de rádio. No entanto, a imprensa e o povo tiveram um motivo de tomada de consciência e os resultados desta acção não deixaram de se sentir mesmo ao nível do parlamento nas sessões sobre a informação. Uma actividade semelhante mas, ainda com um carácter mais firme, processou-se no Vale de Belice onde actua Barbera: Quando a Assembleia de Rocamena lançou a acusação de que o governo estava fora da lei, uma noção cada vez mais profunda da legalidade das massas se interiorizava em cada trabalhador. A recusa do pagamento dos impostos, da água e luz, a ocupação da praça do Parlamento em Palermo e em Roma foram provocações ao poder estabelecido e mostravam que a população do Vale de Belice estava disposta a assumir a força afirmativa de um outro direito: o direito das massas a exploradas. «Quando nós exigimos qualquer coisa que é para o bem da população, eles, o governo, enviam-nos a policia. Agora é tempo de começarmos a julgá-los e a proceder a acções de imposição da vontade popular.» Por volta do mês de Maio de 1970, um grupo de jovens em idade de serviço militar cria um comité e opõe-se a fazer o serviço militar. O comité anti-serviço militar baseia-se no o facto de que sendo o governo um «governo fora da lei» na medida em que nenhuma das promessas foram executadas no Vale de Belice e a população no julgamento de Rocamena assim o decidira. Os jovens recusam-se a fazer o serviço militar sendo o governo ilegal para eles. O movimento geral em toda a Sicília e, agora em toda a Itália, começa a manifestar-se. O julgamento dos jovens já principiou. O ministro Tanassi empenhou-se com o «comitato anti-leva» (comité anti-serviço militar) na reconstrução do Vale de Belice no sentido de promover uma lei que convertesse o serviço militar em serviço civil para os jovens que estivessem ligados a problemas tão graves socialmente como os da Sicrlia Ocidental. Trata-se de uma cedência face ao forte movimento das massas que manifestaram por toda a parte, nos sindicatos, partidos e comités, ou apenas de uma recuperação ? ALGUNS PONTOS DE REFLEXÃO 1.º - É importante situarmos a acção tanto de Danilo e Barbera na Itália onde o aparelho estatal o aparelho jurídico apresenta as características de uma democracia burguesa e, portanto, onde uma luta reivindicativa e política tem uma margem muito larga de expressão «legal». 2.º - Há porém um ponto importante que hoje constitui uma preocupação de toda a esquerda antiparlamentar. A preocupação de procurar revelar o inimigo em todos os sectores da sociedade e não só ao nível da fábrica. O trabalho de bairro, a organização de inquilinos está hoje a ganhar expressão em todos os países. A luta contra as rendas caras ou a reorganização da vida social ao nível dos transportes, urbanização, informação ou animação cultural são hoje algumas das várias frentes que se põem a uma perspectiva de luta contra a política burguesa. As razões são múltiplas. Ao avanço dos sistemas integradores da burguesia através dos aparelhos de integração social e ideológica (sindicatos, mass media, assistência, etc...) opõem-se também uma luta cada vez mais alargada das massas. O contra-poder (cultural, artístico, jurídico e económico) cresce por toda a parte. Novas tácticas de luta são postas em prática. A ocupação dos locais, a imposição da legalidade das massas à «legalidade» burguesa são um facto habitual de que quotidianamente assistimos nas lutas através do mundo contra o capitalismo. Este problema tem-se colocado na medida em que a revolução tem perdido o carácter de um valor abstracto para se tornar uma acção que começa no «aqui-agora». Esta problemática não deixa de trazer expressões limites que acabam por abandonar a linha da revolução. Uma excessiva vontade de festejar as modificações parcelares consumindo todas as energias nessa vitória deixa afastar a luta extrínseca, a militância para que a vitória se generalize. Daí dois perigos: -uma auto-satisfação que se consome e apodrece minada pelas contradições que não desapareceram ao nível social: é a ilusão do micro-socialismo reformista; -a vitória demasiado parcelar que distancia do resto das formas combativas expondo-a isoladamente à repressão: desenvolvimento de uma vanguarda separada de um movimento de massas. 3.º - Há um ponto que merece reflexão: o problema da urbanização popular. Toda a acção de Daniloe Barbera se situava inicialmente num contra-plano urbanístico para solucionar o problema da Sicília. A iniciativa de uma urbanização popular, permitiu a imposição da barragem sobre o Jato como dissemos. Agora, na segunda viagem que fizemos, notamos que o funcionamento da barragem longe de ter um carácter de utilidade geral popular veio fazer beneficiar uma camada de pequenos camponeses que se tornaram privilegiados em relação aos que a barragem não veio tocar. Claro que a organização de uma cooperativa de distribuição da água veio tornar mais justa a solução do problema. No entanto não podemos deixar de constatar que a solução da barragem, se veio acompanhada de uma tomada de consciência das massas na luta contra a exploração, se veio responder – ainda que parcelarmente – às necessidades imediatas dos camponeses pobres, a verdade é que, tomada do ponto de vista do capital e do poder, se tornou um instrumento de apaziguar contradições agudas entre a agricultura e a indústria (cidade-campo), contradições geradas pelo próprio desenvolvimento do capitalismo no campo através da luta de classes. O mesmo se pode dizer do plano de «cidade-território» de Danilo Dolci. À parte a mobilização das massas através da marcha sobre a Sicília Ocidental o plano da cidade território, se a sua solução vier a impor-se, ela é uma vitória se se tratar de uma imposição das massas ao governo. Mas sem mudança radical das estruturas do capitalismo são soluções parcelares, quando não adaptações mais racionais ao sistema de exploração capitalista. O plano de urbanização «cidade-território», tirando o seu carácter popular de elaboração e mobilização,m é um esquema de urbanização utopista de Erbzen Howard, «cidade-jardim», hoje perfeitamente integrado às cidades novas do capitalismo monopolista. Explosivo, entretanto, é o carácter de oposição ao plano oficial, e a elaboração como dissemos. Barbera faz algumas críticas ao modo como o plano da cidade-território foi elaborado e propagado: considera-o apesar do que se disse em torno da elaboração, a propagação demasiado doutoral e portanto exterior à população. Porém dada preferência do problema a partir de uma realidade como o tremor de terra, Barbera serve-se do plano de sobrevivência do Vale de Belice (plano elaborado no tempo da colaboração com Danilo e fazendo parte do esquema geral da cidade-território). Não podemos, no entanto, deixar de constatar algumas dúvidas que sobressaem na discussão deste problema. Giuseppe, arquitecto, ex-professor da Escola de Belas Artes de Veneza, agora próximo colaborador de Barbera, dizia-nos que a proposição dum plano de urbanização «positivo», isto é, um esquema de urbanização susceptível de se realizar, dentro do capitalismo, será sempre uma panaceia. Mas o problema está em, partindo de uma estratégia, poder no entanto mobilizar as massas através de conquistas parcelares, de vitória em vitória avançar com estreita ligação às necessidades concretas das massas. Uma questão é saber se é possível a aplicação da pressão popular como rectificador e criador de um urbanismo que interesse verdadeiramente o povo. Sabe-se que o «urbanismo», a «urbanização» e «o aménagement dos centros urbanos», na sociedade capitalista não são mais do que a ideologia do poder. Quer dizer que se consta que a actividade dos urbanistas sanciona esta ideologia com a sua prática, e que os centros de formação de urbanistas formam elementos de integração. O saber técnico não é «neutro» apesar das «intençõe» possíveis que afrontam a ideologia do poder da burguesia, se estas intenções não se instrumentalizam para uma prática social realmente oposta à ideologia dominante esta continuará a sua marcha repressiva e integrativa. O urbanismo «técnico» é também ideologia. Partindo do alto ele afirma uma realidade autocrática e instala uma forma burocrática separada da base. Assim um urbanismo opondo-se à integração alienante e repressiva deveria antes de mais ser uma investigação da base e com a base. Deve também ser uma estratégia da luta popular pelas vitórias sucessivas das massas. Estes ganhariam a consciência de ter criado um futuro e de transformar, com as suas próprias forças, uma realidade indesejável numa situação desejada. O que acabamos de descrever sobre a acção de Danilo, Barbera e outros, é um caso concreto da Sicília que poderia servir de exemplo de estudo aplicável numa luta da base pelos interesses do povo. A táctica pode-se resumir assim: 1.º- Criar um meio/contraditório autogestionário ao nível da procura das soluções; 2.º -Desenvolver uma acção de pressão popular com contra-planos aos planos impostos pelos poderes autocráticos; 3.º- Criar meios contraditórios da prática social e de poder, cooperativas, comités, assembleias populares… No primeiro ponto situam-se todos os métodos d'auscultação das necessidades populares a partir de conversações, uma «maieutica popular» onde se apanham os problemas e o essencial das soluções previstas. O alargamento das reuniões, os confrontos com as proposições dos técnicos, a discussão renovada, eis um momento importante desta procura da base e com a base. No segundo ponto inscrevem-se todas as acções de propaganda e reivindicação popular: são as inscrições, os jornais, as canções, as marchas, os jejuns, ou ocupações de locais e até outros métodos. Tenta-se esclarecer as massas sobre as suas próprias reivindicações e estabelecer uma mobilização afim de fazer pressão sobre o poder de modo a satisfazer as suas reivindicações. No terceiro ponto é a instalação de um poder embrionário que é o modelo miniaturizado de um novo poder das massas. Será apenas revelação do poder criativo das massas e não ilusória solução. Parece-nos porém que nada de consequente poderá ser feito se, da espontaneidade das massas, na luta, não se forma já uma vanguarda. Vanguarda não separada das massas antes estreitamente ligada a elas mas capaz de uma orientação estratégica bem clara. 

ENTREVISTA COM DANILO DOLCI


Danilo Dolci


«Como participar na mudança de orientação política dum governo?»
«É difícil, em pouco tempo, tratar o assunto em profundidade. E ainda mais difícil falar sobre isso duma maneira geral, porque cada lugar no mundo tem condições geográficas, históricas, culturais, económicas e estruturais próprias. A primeira coisa que é preciso fazer é estudar esta situação concreta. O estudo concreto é a chave essencial para compreender quais são as forças disponíveis, as estruturas que devem ser ultrapassadas. A consciencialização da base é necessária, para conhecer as dificuldades do povo. Sobre esta questão na nossa experiência, aprendemos que a melhor coisa não é atacar sobre o plano ideológico. Discussões com padres sobre a virgindade de Maria não interessam; podem só criar divisões. Precisamos mobilizar sobre problemas concretos, mesmo se eles são pequenos, mas para os quais agente vai empreender acções. Por exemplo: a barragem. Não são necessários os discursos ideológicos; o mais importante é mostrar motivos que podem ser criados, que podem ser factores mobilizadores, que podem ser alternativas. Então é necessário sempre responder aos interesses da gente. É um longo caminho, difícil algumas vezes. Mas partir de um facto mobilizador nunca pode significar que nós desistimos das nossas ideias pacifistas. Com uma população pobre não podemos começar com propaganda. No entanto, mesmo se o processo é difícil devemos fazer com que as pessoas falem dos seus problemas nas reuniões. O modo de fazer isso não tem regras, e por isso é uma coisa difícil. É preciso tentar uma aproximação dialéctica; começar por pequenos grupos e alargar a tomada de consciência a outros grupos. Nessa tomada de consciência existem elementos ideológicos que nós não devemos tomá-los de um modo exterior. A base dessa consciência deve tornar-se uma prática experimental. (...) Na auto-análise, as necessidades das massas impõem-se a quem tenta fazer o inquérito. Exemplo: a zona do tremor de terra tem um problema real dominante: a reconstrução. A metodologia varia em relação a maturidade ou não da população. É necessário persuasão. Creio que a palavra «dirigir» é perigosa a empregar. Prefiro a ligação entre a maieutica social e uma tomada de responsabilidade individual. Também aqui, não há regras nem receitas. Estamos diante d'uma obra de arte! Quando trabalhamos a terra, fazemos uma sementeira; certamente temos um método, porém, múltiplas situações intervêm: a fecundidade da terra, a qualidade das sementes…

- «Gostaria que aprofundasse o problema daquilo a que chama maieutica social» 
«A maieutica social é indispensável mas não é suficiente. Por isso prefiro falar de uma dialéctica entre a maieutica e uma tomada de responsabilidade cultural, profissional e política. É necessário respeitar a capacidade poética do povo e a sua visão unitária do mundo, que não devemos destruir mas abrir. (...) Um problema complexo é que nós não devemos entrar em contradição total com as suas «verdades». Porém, ao mesmo tempo, não podemos aceitar posições erradas e confusas. (...) No futuro, o importante será descobrirmos três níveis de aproximação da verdade: -relações entre pessoas, -trabalho de grupo, -relações entre vários grupos. Isto será uma aquisição importante. Actualmente não há uma resposta clara a esta questão. Existe já uma planificação económica e cultural. É necessário agora descobrir os meios de planificar estes três níveis de que falei. (...)

- «Quais são segundo o que pensas, os melhores instrumentos ou instituições para o trabalho numa comunidade?» 
«Para trabalharmos no seio do povo, é preciso encontrarmos meios que funcionem melhor. Por vezes é o sindicato ou os comités, outras vezes são consórcios populares ou cooperativas. Também aqui não há receitas a fornecer. O importante é que estes instrumentos não sejam recuperados por estratégias opostas à nossa. Cooperativas da máfia ou cooperativas democráticas? Toda a questão está aqui. Em geral o trabalho cooperativo é importante. Não é um instrumento essencialmente revolucionário, mas pode ser um instrumento ao serviço da revolução. É preciso a cada momento empregar o meio conveniente, tendo como perspectiva fazer avançar a nossa estratégia para com o mínimo de esforços alcançarmos o máximo de resultados.» (...)

- «É o método não violento?» 
«Eu não gosto de falar em método não violento, mas sim de revolução não violenta. Por outro lado deve entender-se a não violência num sentido mais vasto. A não violência pode ser activa ou não. A greve é uma forma de não colaboração; a ocupação de terras é um método de não violência mas com carácter activo.» (...)

- «E o problema da recuperação deste método não violento?» 
«Com efeito, até agora, não existiram grandes mudanças na estrutura económica e social através de meios não violentos. Porém, não é científico dizer-se que só a violência permitira mudanças radicais. Tanto mais que muitas convulsões violentas tem efectuado sem por isso exercerem modificações estruturais. Não é portanto pois a violência que determina a mudança estrutural mas o modo como as massas tomam consciência e se determinam a construir novas estruturas sociais e económicas. Eu quando falo de revolução não violenta, quero dizer mudança profunda de estruturas sociais e económicas pela participação das massas.» (...)

 ENTREVISTA COM LORENZO BARBERA

«Qual a razão da vossa separação do grupo de Danilo?»
«O nosso grupo ficou até Março de 1969 na equipa de Danilo. Danilo é um observador inteligente, mas nós pensamos que ele foi sempre exterior à zona, e que toda a organização que arriscava a continuar exterior. Na medida em que uma parte do grupo começou a criar uma relação mais profunda com a população, a interessar-se realmente pela organização de base, pelas cooperativas, a organização de um tecido de intervenção social, nós fomo-nos afastando das maneiras de agir e de viver do grupo de Danilo. Um problema que pomos hoje é de saber como nos financiar a nós mesmos. Danilo, ele, obtém-no bastante facilmente. Nós, por enquanto, somos ainda ajudados por um grupo de amigos do exterior. Mas são grupos – essencialmente grupos de jovens que comprenderam muito bem o sentido do que nós fizemos aqui. Mas há também uma parte de ajuda «interna» vinda da zona, assim com algumas cooperativas. As cooperativas porém estão no início: não há ainda cooperativas suficientemente sólidas para sustentar um trabalho como o nosso. Há também algumas administrações comunais que nos dão subvenções. Na verdade, há poucos meses que somos autónomos e não podemos passar toda a vida a servirmo-nos do nome de Dolci. Não procuramos, verdadeiramente, uma divisão com o centro, mesmo tendo compreendido que os seus interesses estavam sobretudo ligados a um mundo da cultura externa: os notáveis da cultura como dizemos, mesmo se são «notáveis» de esquerda. Isso podia ser útil se não nos afastasse do trabalho primordial com as massas. Mas agora de qualquer modo encontramo-nos perante esta separação. Danilo teve medo que este discurso mais de «base» fizesse saltar muitas coisas e decidiu romper connosco.»

- «Vocês procuram portanto, vir a autofinanciar complemente o movimento?» 
«É para isso que tendemos. É uma coisa que se desenvolve ao mesmo tempo que se desenvolvem as cooperativas. É preciso desconfiar da ajuda do capitalismo. Esta ajuda serve a instalar mais próximo de nós as suas ventosas para poder assim melhor sugar o nosso sangue, como um enorme polvo. A grande acumulação que se produziu nas regiões ricas foi obtida com o cansaço das pessoas das regiões pobres, e a riqueza é construída sobre a criação da pobreza. Ora nós podemos aceitar a ajuda dos que, como nós, combatem a pobreza, porque temos os mesmos fins e o mesmo inimigo. Mesmo se eles estão no norte, a sua acção não é estranha à nossa. Uma coisa é certa é que não podemos aceitar dinheiro daqueles que não têm o mesmo objectivo que nós.»

- «O grupo de Danilo tinha já um método, e mesmo, um longo trabalho de investigação já feito. Ele vai-vos fornecer dados para trabalhar cientificamente na zona, ou vocês tentam montar todo um grupo de investigação?»
«Os dados que temos são os que foram feitos com população. Os dados vêm do trabalho de base e da auto-análise. Nós não temos colaboração técnica porque para nós deve existir uma unidade perfeita entre a concepção dos problemas; o momento do nascimento dos problemas, o momento das proposições para os resolver e em todo este processo a população deve estar presente e participante, com os especialistas (não os que vivem nas universidades, mas os que vivem com a população e que têm toda uma experiência de explicação e de discussão com a população). Estes especialistas são capazes de recriar técnicas em colaboração com a população. É assim que nós trabalhamos, todo o grupo, tanto no domínio da educação como no da planificação. Mas estas pessoas, digamos qualificadas, não são de facto mais importantes porque os seus conhecimentos técnicos ou teóricos têm que ser reinventados constantemente durante o trabalho. Isto porque nós acreditamos que os objectivos de mudança não podem ser atingidos senão através das criações populares é bem a população que se entrega à realização destes objectivos, que controla as novas estruturas e só isso pode garantir uma democracia permanente. Uma das fraquezas das atitudes autoritárias é de julgar que o povo não compreende nada e que nós devemos pensar tudo por ele e em seguida ele deve estar de acordo connosco e pensar o que nós pensamos. Se o especialista não consegue explicar-se perante a população ele não tem o direito de impor o que quer que seja. Durante os três dias do Julgamento de Rocamena a população reuniu-se para julgar os responsáveis desta situação no Vale de Belice. Quem eram os responsáveis desta situação, da não-construção do dique, quem eram os responsáveis das separações das famílias que emigram? Há 8 anos que o Parlamento prometera construir a barragem mas não o fez. É responsável da pobreza que não tem saída por si própria, e assim de todas as outras coisas. Danilo disse que todos estes factos deviam ser julgados por verdadeiros juízes, especialistas da lei, mas não pelo povo. Ele disse que era muito perigoso deixar a população habituar-se a julgar as autoridades. E disse também que se podia gritar: «burocracia assassina!» Mas não se devia pronunciar os nomes dos burocratas. E foi sobre este ponto que não conseguimos pôr-nos de acordo, porque pensamos que se nós dizemos «burocracia assassina», mesmo os burocratas, os políticos e quase que até o governo estariam de acordo connosco. Danilo diz que não se deve personalizar o ataque, mas nós pensamos que se continuamos a esconder os factos por detrás de generalidades, nunca nada mudará, nada atacará as estruturas e as estruturas não são coisas caldas do céu: elas são dirigidas por homens bem concretos. Se os homens não entram em crise, nem a velha estrutura, nem o velho estado entrarão em crise. Ora nós pensamos que se não se quer pôr o dedo na ferida, implicitamente quer-se conservar o statu quo. Sobre este ponto quase que nos batemos. Danilo disse que tudo isto era violência e ele era por definição não violento. E nós respondíamos que queremos homens que acabem com a violência das estruturas. E tudo isto terminou com a nossa separação. Mas Danilo é sincero quando pensa que o povo é incapaz de compreender e que é preciso que o técnico o venha salvar, explicando-lhe tudo. Mas a existência de especialistas que representem uma espécie de inteligência externa, é sempre um risco e é contra e as possibilidades e a vontade da população para pôr de pé uma estrutura quase de tipo colonialista. É um pouco a teoria da «cidade-território» de Dolci que podia ter sido imaginada pelo governo. É um plano que se apresenta essencialmente como um mapa geográfico, mas onde a falta de uma real percepção de «escala» se faz sentir, onde falta também a relação entre a população e esta ideia. Uma vez que Danilo explicou o plano à população, é interessante de ver a reacção desta. Quando ele acabou de falar, houve camponeses que disseram: «Bom, agora, falemos dos nosso problemas...» Não se trata de má vontade da parte da equipa de Partinico, mas simplesmente uma consequência da posição externa em relação à população em que se encontra Danilo – um homem de cultura clássica italiana, um homem do norte, mais próximo de um suíço como mentalidade que dum Siciliano. Há quinze anos que trabalha na Sicília: conservou-se exterior, é como se dissesse: existo, penso muitas coisas, compreendo muitas coisas, uma vez diante das pessoas faço o meu discurso, eles aceitam e tudo se passa bem, automaticamente. Porém, o que é mais importante é estruturar organizações de base, quer sejam cooperativas, quer sejam comités locais ou pequenos grupos que trabalham ao nível de todo o pais. Se tudo isto é junto a um trabalho de formação de quadros, então todas estas organizações começam a ter uma actividade estruturada e coordenada. Elas tornam-se perfeitamente capazes de fazer elas próprias a análise sócio-económica, e de compreender qual é a importância da modificação da Escola. Formam-se um tecido de grupos e de pessoas capazes de agir em relação constante com as populações, tudo se passa nas relações entre a pessoa especialista, comités de base, os comités populares e os encontros de cada zona. É preciso ter a coragem de admitir, quando se é especialista, que a população através das suas diferentes reuniões possa chegar a resultados e decisões diferentes dos que tinham sido previstos.»

- «Um trabalho preciso, que se faz neste momento, é de estabelecer um contra-poder popular baseado numa estrutura económica de cooperativas. É essa a base fundamental do vosso programa?»
 «Sim, mas não só: há as cooperativas, os grupos nas aldeias nas cidades que têm uma função de controlo, de procura, de discussão dos problemas locais que vão empurrar as estruturas ao nível comunal e ao nível regional. Temos um comité inter-comunal que se reúne todos os meses. Nele reúnem-se os comités de cidadãos de cada comuna. Há grupos de jovens mas só a partir deste ano é que se fizeram cursos de planificadores de comuna e de zonas. Também temos cursos para a formação de novos educadores. As cooperativas têm para nós uma grande importância, sabemos que elas não representam tudo no sistema actual. Conseguimos com a marcha de 1968 obter de Roma que o Parlamento Italiano se dedique à realização de um plano de desenvolvimento para a zona com intervenções do estado. O estado aceitou isto sob a nossa pressão mas não aplicou a lei feita e por enquanto nós tentamos fazê-Io aplicar a lei. Mas é preciso que ela seja controlada pela população. O grande é problema é que as nossas estruturas económicas arriscam-se a não se manterem se não são capazes de resistir à concorrência capitalista do norte. Há que criar estruturas diferentes e defendê-Ias. E isto diz respeito a toda a população, porque toda a estrutura económica destruída significa uma parte maior ainda da população que deve emigrar para poder trabalhar.»

- «E o jornal – «Planificazione Siciliana» – corresponde aos interesses dos quadros cooperativistas e das massas?»  
«O jornal é para toda a população. É a expressão da participação local. Do ponto de vista financeiro, há uma quinzena de amigos, quase todos sicilianos, que dão cada um 5 000 liras por mês e há a cooperativa de Campobello que dá 10000 liras por mês. E há também grupos de jovens que difundem o jornal ao nível local e que obtêm uma pequena soma de dinheiro. Assim, quase que somos autogeridos e autofinanceiros com a ajuda da população.»

- «E a formação dos quadros?» 
«Fazemos cursos de formação de quadros. Antes eram feitos em Trapeto até que Danilo não quis que aproveitássemos o Centro. Até agora foi sobretudo para a qualificação de quadros para as cooperativas. Há também a formação de educadores que são pessoas que vivem nas aldeias. São já professores primários que vão empregar novos métodos. Encontram-se entre eles e forma grupos a fim de transformarem a escola. O desenvolvimento das descobertas das coisas novas que podem nascer é infinito somente na medida em que se liberta realmente a participação. Este é o princípio de base e ar podem-se tornar operacionais os métodos como o de Freinet, a educação activa, o grupo de educação permanente de Ettore. O primeiro problema é criar estruturas produtivas também para as mulheres. É necessário dizer que as mulheres participaram nos grandes movimentos e nas grandes iniciativas; porém sobre o plano organizacional elas não estão ainda bem preparadas.»

- «E a Máfia?» 
«A Mafia é um problema muito discutido por Danilo porque ele, mesmo sem querer, contribuiu para que a questão fosse ainda mais equívoca. Ele pensava que a Máfia era uma questão local. Efectivamente a Máfia representava a garantia do poder económico feudal e estava também ligada aos governos existentes. Hoje é a garantia do poder económico capitalista e da sua implantação na periferia; assim todos os pontos dos mercados que vêm do norte por exemplo, estão todos em relação com a Máfia. Quem controla o mercado dos automóveis na Sicília? É a Máfia, porque a Máfia tem os seus homens de confiança do lado da FIAT. Quem controla o mercado dos produtos químicos? É a Máfia também, porque a Monte Edisons está filiada à Máfia na Sicília. Quem controla os televisores e as pequenas máquinas eléctricas? É ainda a Máfia. Naturalmente a Máfia também tem como papel o controlo da produção agrícola por conta das grandes indústrias de transformação que estão no norte. Lá também eles são amigos ou servidores fiéis da grande indústria. A Máfia aparece como um corpo parasitário mantido pelo capitalismo e é difícil de a combater como um fenómeno interno. O que nós temos nitidamente claro é que ela deve ser combatida da mesma forma que o sistema capitalista. É um problema que não pode ser isolado. É preciso estabelecer a luta contra ela de uma forma popular. Não podemos pôr em heróis vingadores contra a Máfia, porque então, seremos notáveis contra notáveis. É preciso, através de discussões, provocar a tomada de consciência popular pela relação directa que existe entre a Máfia e as velhas estruturas e que é preciso criar estruturas alternativas que quebrem a Máfia. É mesmo muito importante determinar quem é mafioso e eliminar o seu prestígio. Foi essa experiência que fizemos com MatarelIa ex-ministro da democracia cristã. Mas ficaram dois homens ainda mais perigosos que ele: um chama-se Lima de Palermo e o outro Gioa. Gioa é vice-secretário nacional da democracia cristã e tornou-se ainda mais importante na organização geral da Máfia. Vê-se assim que a Máfia não é um fenómeno isolado, que está ligada a uma série de forças económicas e políticas e que não se pode atacar um mafioso sem se atacar os outros mafiosos. É preciso encontrar meios diversos para atacar o sistema, completamente. O que é importante no julgamento popular de Rocamena é ver como a Máfia, que foi julgada, foi associada a nomes como Pirelli, Agnelli, grandes monopolistas, porque eles representam a mesma coisa e servem a mesma estrutura de opressão.

Nota: Na altura em que escrevemos este artigo sobre a Sicília a cisão de Barbera aparecia como uma divergência táctica sem grandes modificações em relação à estratégia pacifista e de pedagogia social. Em 1973 Barbera e alguns elementos do seu grupo radicalizaram as suas posições políticas, colocam hoje o combate espacial como um elemento da táctica combativa do partido marxista-Ieninista a que vieram a aderir. Danilo prossegue com o seu grupo propondo uma série de acções pacíficas: pretende fazer passar algumas medidas urbanísticas sem para isso radicalizar a sua posição política.
(in Rodrigues, Jacinto, “Urbanismo, Uma Prática Social e Política, Colecção ProblemaSoluções, Ed. Limiar, Porto, 1976)